


Sentada no restaurante, à espera do bife grelhado, só com salada por favor, olho em redor com alguma atenção.
Ali à direita um casal que se adivinha ilegal num discussão em surdina sobre que digo eu à minha mulher .. Dá-me uma ideia! (apeteceu-me aconselhar o incauto sobre esse tipo de perguntas e explicar-lhe tintin por tintin o que quer uma mulher ouvir quando o seu homem deixa de gostar dela, mas, obviamente que me abstive)) .. Mais adiante um grupo de rapazolas com livros dispersos pela mesa, cotovelos apoiados, cavaqueiam e depenicam uma travessa de batatas fritas .. À esquerda uma mãe jovem com uma criança pequena, esforça-se para que coma um enorme prato de sopa, sem pingos nos calções, num chega-te para a frente que o pequeno rabeia atirando sopa, pão e o que mais esteja na frente, propositadamente para o chão .. O olhar da mãe é aflito, na tentativa de chamar a atenção da empregada com um pano, por favor ..!
Tenho esta mania, que fazer? A ausência de companhia é quase propositada nas pausas que me concedo e ao fim e ao cabo, que melhor companhia que as vidas que correm esbatidas?
Reparei assim facilmente na sua chegada .. Lenço na cabeça como me lembro que andavam as mulheres na terra de meu Pai, com penteados perfeitos de compridos cabelos bem amarrados, saia comprida, quase até ao chão, camisa florida mas em tons tristes e desbotados, usada mas perfeita de asseio e de ferro de engomar utilizado com afinco.
Olhar atento pelo balcão, ar de pouco conforto na procura de uma mesa escondida, perto de uma porta de preferência, discreta, para que não dê nas vistas.
Admirei-lhe o ar decidido com que atravessou a pequena sala, alheia e indiferente aos olhares curiosos com que a brindam os rapazolas, passo firme e saia num fru fru a rasar o chão. Passou-me ao lado e senti-lhe o cheiro a tremoceiros e pé de oliveira, vi-lhe as mãos escuras, tisnadas, enrugadas do trabalho, os olhos fitos na parede em frente numa tentativa de que a sua atenção não seja desperta por nada que a faça virar a cabeça.
Sentou-se na mesa detrás. Ouvi-a afastar a cadeira e a saia, sentar-se, e à empregada que acorreu rápida e solícita, quem sabe para minorar o sofrimento” da observação no meio de anónimos (não o somos todos?) .. pedir: uma sopa .. e a garrafa de azeite, se fizer o favor, menina ..
Sorri.
Típico.
Ao apanhar-me do chão a carteira teimosa que caía pela segunda vez, mania de a dependurar na costas da cadeira, proferi um Bem-haja e vi abrir-se um sorriso luminoso e um brilho a seara madura nos olhos .. da Beira, menina? .. Também .. :)
*Cronista residente





Apareceram no bairro há coisa de uns três ou quatro anos, de apartamento comprado ali para os lados da avenida. A mãe, Matilde, comprou um dos bungalow de madeira em frente ao maior liceu do concelho e transformou-o em algo que, de tabuleta discreta por cima da porta, anuncia Café com Letras. É um espaço arejado, bem decorado, cheio de prateleiras imensas onde repousam obras antigas e bem encadernadas que competem em linha horizontal com manuais escolares de todos os anos e computadores espalhados em pequenas mesas. Por detrás do balcão aguarda-nos um sorriso sereno num rosto marcado por uma vida que, assim de relance, se adivinha ter sido penosa. Não pelas rugas praticamente inexistentes, nem pela forma de andar ou falar, mas pelos olhos. São lagos de lágrimas secas aqueles olhos. Alguns cabelos brancos espreitam, bem amarrados numa fita de cor, e o avental verde-claro, de traçado e meio, tapa-lhe a roupa deixando apenas de fora um calçado elegante. O filho mais novo trabalha no espaço. Dá explicações, à borla, à miudagem. E o que esta o admira. É um rapaz muito bonito, com os traços delicados que herdou da mãe em conjunto com uma irreverência própria da idade, modos algo antiquados de tão gentil, e grandes olhos verde-escuro, tão escuro como a floresta em dias de inverno, expressivos e a inspirar confiança. Ilimitada. Parece que tenho um fraquinho por ele não é? E tenho mesmo!!
Sabe-se que há mais dois filhos. A mais velha chama-se Marta, é formada em medicina a trabalhar com os Médicos sem Fronteiras, actualmente em África. O rosto de Matilde ilumina-se de cada vez que recebe um postal, um telegrama, uma pequena missiva que lhe traga notícias. Cola-os a todos num quadro de cortiça num canto da sala do café e explica aos curiosos onde está a sua mais que tudo e que faz ela na vida. Os mais pequenos, alunos de 7º e 8º ano do liceu ouvem-na maravilhados e fazem-lhe mil perguntas se ela não tem medo dos animais selvagens e se consegue curar todos os meninos doentes. Os mais velhos chegam por vezes a comover-se disfarçando rapidamente a lágrima matreira ou a cor avermelhada nas faces com um pedido de copo de leite com cacau como só a Senhora sabe fazer. A Senhora. É comum vê-la embrulhar as sobras do dia em papel de prata e dividir em pequenos sacos que distribui pelas mochilas dos que sabe precisam. E como sabes mãe? Pergunta-lhe o filho com frequência ao vê-la evitar umas mochilas e abrir outras. Olha-os nos olhos Miguel, responde-lhe baixinho e num tom tão terno que o atira rapidamente para os anos em que enrolado numa manta rota, no chão de uma sala sem móveis, adormecia ouvindo-a cantar num sussurro a altas horas da madrugada. Olha-os nos olhos que dizem sempre o que calamos.
Do outro filho ninguém sabe grande coisa. Acho que nem ela. É o único com direito a medalhão de fotografia pendurado ao pescoço. Arrisca-se que morreu, que fugiu, que deu um desgosto à mãe e que a mãe lhe deu um desgosto a ele. Assim mesmo à vez. Vez das pessoas que comentam sem saber, mas porque têm de comentar para tentar saber. Ninguém lho pergunta directamente mas quando fala dos filhos ela enuncia-os por ordem de idades e chegando ao Manuel toca ao leve no medalhão. Como que a ter a certeza que ele ainda está por ali.
O espaço é fantástico. E está quase sempre cheio de garotos que em horários divididos ali passam grande parte do tempo livre. Estudam, pesquisam, lêem, comem e bebem. Não há caixa registadora, nem dinheiro, nem qualquer tipo de troca.
O grande mistério é saber como é que ela consegue manter tudo, tudo oferecer sem nada pedir em troca. Diz-se à boca fechada que depois de muito sofrer na vida recebeu uma herança incalculável. Outros alvitram que lhe saiu um qualquer prémio em dinheiro chorudo. A maioria limita-se a agradecer aquela presença serena e meiga, algo etérea, num dos bairros mais complicados, pobres e carenciados do concelho. São vários os pais que lhe pedem que olhe pelos meus meninos que a admiram tanto e outros tantos que a interpelam pedindo conselhos sobre como reagir ou castigar ou premiar. Ouve-os a todos como se nada mais tivesse para fazer na vida. É esta disponibilidade permanente, esta concentração no interlocutor, aqueles grandes olhos castanhos secos de lágrimas e sem brilho, que nos atrai a todos.
Como se ali estivesse, por nós e para nós.
O filho sorri quando lhe fazemos perguntas mais íntimas e evita-nos arqueando o sobrolho em tom meio irónico meio sério.
Há dias, estava eu sentada a consultar uma enciclopédia como as que havia em casa do meu Pai, entrou uma mulher de uns trinta anos, meias de renda preta e saia curta, blusão de pele colado ao corpo, muito maquilhada o que lhe dava um ar patético. Curiosa observei o diálogo entre as duas:
Preciso de ajuda sabe? Precisava que me emprestasse algum dinheiro para poder ir à cidade. Os clientes e o tom de voz baixava à medida que a minha curiosidade aumentava. Vi o corpo da Matilde ser percorrido por um arrepio. Juro que vi! Quando em casa contei o episódio todos me olharam no gozo, mas eu juro que a vi transformar-se. Saiu de trás do balcão onde cortava fatias muito fininhas de pão que depois de barradas com manteiga caseira eram colocadas no forno cobertas de queijo, e faziam as delícias da segunda leva de miúdos que deveria estar a chegar para lanchar e fazer os trabalhos de casa.
Agarrou a rapariga pelos ombros e disse-lhe em voz clara e tão diferente do tom que lhe conhecemos tu queres trabalhar? Ao que a outra, meio assustada com a reacção de quem lhe tinham dito ser a pessoa mais calma e serena que poderia conhecer, respondeu quero, claro, mas como, onde .. a fazer o quê? A senhora sabe como isto está não sabe? Desculpe, desculpe, disseram-me para vir aqui que … olhe desculpe, e quase a chorar ia andando para trás, tentando libertar-se daquelas mãos que lhe apertavam os ombros e daqueles olhos que lhe perscrutavam a alma.
Vi a Matilde acalmar. Abrir uma gaveta e dela retirar um avental igual ao seu. Mirou a rapariga e disse-lhe num tom totalmente diferente, no seu tom; naquele tom que nos diz que é connosco e só connosco que ela está a falar: eu preciso de ajuda por aqui minha querida. Importas-te?
Há algo que sempre me deixou curiosa depois desta cena. Porque é que de todas as pessoas que a Matilde já ajudou, de todas a quem já tanto pagou, ofereceu, proporcionou, teve esta rapariga honras de com ela passar a partilhar o espaço que todos adoramos e onde nos sentimos em casa? .. eis uma pergunta que gostava de ver respondida.
Mas nenhum de nós tem a coragem de a verbalizar. E isso eu sei porquê; temos medo de voltar a ver naqueles olhos o horror, o pavor e a tristeza que vimos no dia em que aquela rapariga entrou no café.
Somos afinal uns sortudos! E esperamos que a Matilde e o Miguel fiquem por aqui muito tempo. Acho que é isso que temos de lhe dizer este Natal! Acabei de ter a ideia da minha vida!! Mal posso esperar para contar aos outros: Vamos desenhar-lhe um postal de Natal!
Todos Nós. Juntos.
Como ela sempre diz que temos de ser. Juntos são invencíveis, ouvimos-lhe com frequência, Acreditem nisso.
Está na altura de lhe agradecer isso também.










error, acordada

Actualíssima a frase. Actualíssimo o sentimento de que só em situações extraordinárias, neste caso e como todos sabemos, catastróficas, a humanidade se une, se mobiliza, arranja o que é necessário, oferece o que tem e o que não tem, e “grão a grão” todos fazemos a diferença, todos colaboramos, ainda que os haja de sobrolho arqueado numa desconfiança própria de quem, tendo imenso, nada oferece. São os “velhos do Restelo” com os quais temos de conviver, não só agora que o mundo abanou sob o peso de uma natureza que se revoltou, mas diariamente em todas as pequenas atitudes que podem (e devem) fazer a, por vezes, minúscula diferença entre viver na selva e ..
E acima de tudo é conveniente, crescidinhos que somos, que tenhamos a certeza que ninguém está acima de, imune a, isento de ..
Think about that*
*Cronista residente




Era um dia de Inverno, frio e de chuva feito, negro de céu carregado sem nuvens e sem azul, como só aqueles dias de Inverno que nos tornam tristes, o sabem ser.
À chegada ao aeroporto de Lisboa pensou pela primeira vez em como tinha passado por aquela viagem, catorze horas a viajar sem que desse pela passagem de um minuto sequer. Como havia chegado ali .. ou por outra, como havia empacotado a sua vida que de um mês se transformou rapidamente em seis .. malões de pele curtida e escura, chaves de casa entregues, partida agendada.
Ainda há bem pouco tempo o caminho fora o inverso, desejosa de deixar para trás uma terra de raízes feita e negadas, desejosa de adiar a resolução de uma situação matrimonial complicada, de romper os laços, destruir os nós, tudo agora lhe caía em cima com o peso de uma chuva pegajosa que a fazia escorregar no alcatrão e lhe sujava a bainha das calças impecáveis.
Táxi ? .. e a viatura pára, motorista solícito a segurar na porta e a interrogação a formar-se nos olhos, num como vou meter tudo isto dentro do carro. Coube.
Para onde menina ? e à pergunta verbalizada olhos no espelho retrovisor a olhá-la ligeiramente indeciso sobre a nacionalidade da passageira, ela siderada olhando-o de volta e questionando-se .. “para onde?”.
Alheada atira-lhe um “vá andando ..” como que sem destino, sentindo que não era bem-vinda, ninguém a esperava tal como ninguém se havia dela despedido .. “para onde?” .. morada completa para dar não tinha .. a sua casa estava há muito vendida e na pressa da saída do país por motivos que gostava de imputar ao profissional, desculpando-se assim, não tinha assegurado um ninho para onde regressar quando a palha faltasse .. regressar a casa dos pais onde provavelmente um leve arquear de sobrolho saudaria a sua chegada tardia como se ontem tivesse saído para ir ao supermercado, onde os irmãos lhe correriam para os braços carregando o fardo da saudade de uma irmã que lhes fazia falta, não lhe pareceu, ou por outra, pareceu-lhe completa e absolutamente .. despropositado.
Não estava preparada para reencontros e desculpas balbuciadas, nunca fora expert na invenção do que quer que fosse à excepção das histórias de “era uma vez” que acabavam sempre, invariavelmente, em casamentos apaixonados e proles de crianças Nestlé a correr pela casa, as mesmas estórias com que em tempos adormecera os irmãos que, sabia, lhe sentiam a falta. De quem sentia a falta.
Para onde .. ?
A ideia de indicar um hotel, coisa que fazia amiúde portas fora do seu país (sê-lo-ia?) com uma facilidade de quem indica o lar que a espera, pareceu-lhe, agora de volta, no mínimo .. ridículo. Não se via a arrastar os malões e a desfazê-los em local próximo ou longe da sua casa .. do seu sítio.
Afagava lentamente o telemóvel, enquanto o motorista de táxi, que lhe deitava de vez em quando uma olhadela pelo espelho retrovisor, desenegrecendo o semblante quando a percebeu perdida, continuava às voltas pela cidade de Lisboa.
.. Ligar a alguém .. formou-se no espírito. A quem? aquela amiga que sabia a acolheria com um gritinho de “grande sortuda, já cá estás?” e perante quem ela teria de ostentar o ar da maior sortuda do Mundo por o conhecer sem o olhar .. sem o viver ? Não.
Ao amigo que sabia solidário, o melhor amigo que já houvera tido nos dias da sua vida até ao dia em que timidamente lhe havia pegado na mão e confessado o seu amor antigo, estragando, literalmente, tudo ? também não ..
Ao ex-marido ? ex-marido .. realizou, porque o pensou, o significado da palavra .. ex .. Marido. Projecto de vida que ficara a meio, vontades e planos não concretizados, questões burocráticas das quais havia oportunamente fugido, o assinar da papelada, o seu nome de volta, a casa vendida, a cadela oferecida .. que lhe teriam feito das flores do jardim ? .. e novamente a assola o peso da culpa, a consciência que altaneira lhe diz com todas as letras.. sim prolongaste demasiado a situação, iludiste, enganaste, fizeste sofrer .. Ela a achar que o tempo de ausência em partes incertas adormece as consciências mais teimosas a ter de admitir que a dela finge-se adormecida durante tempo demais.
Quase a convence.
Para onde?
*Cronista residente


Mas gosto de balanços.
E de fazê-los a propósito ou fora de época. E de aprender algo com isso.
Tenho trabalho, tenho saúde. Tenho casa e o meu frigorifico está cheio de comida. O carro parado à porta não é nenhum último modelo, mas anda. E é meu.
As prioridades da minha vida passam por coisas simples. Ser feliz, sorrir, trabalhar, amar, acompanhar, criar, enfim, verbos simples de conjugar, seja em que tempo for.
Nada de extraordinário. Escrevo que me farto, coisa que adoro fazer. E as portas que as minhas letras abriram em 2009 dificilmente as fecharei algum dia. E falo pelos cotovelos para impaciência dos que me amam. Impaciência controlada claro que é tudo gente bem-educada ;) .. já tive férias, e ainda vou ter férias. Com a família, entre amigos. A passagem do ano que se avizinha vai ser diferente de todas até aqui. Porque estou mais feliz? Ou porque aceitei ser ainda mais feliz? Também. Mas acima de tudo porque, mais uma vez, a vida me surpreendeu, e eu que adoro surpresas, agarrei esta com a serenidade consciente da sorte que tenho mas acima de tudo porque também sei merecê-lo.
A princesa do reino lá de casa cresce linda por dentro e por fora, serena, irrequieta, segura e feliz, tão diferente da menina mimada de há uns anos atrás mas ao mesmo tempo tão reconhecível no mimo .. e no menina. Que mais posso pedir, perguntava-me ontem na cozinha a dobrar papel de embrulho, e a tentar que os tupperwares chegassem para todos levarem a sua parte numa mesa que se põe sempre a mais. Sempre. Graças a Deus.


Range o vento na janela, uiva à porta fechada. Salta pela frincha do tempo e invade a assoalhada. A manta rala e curta não tapa o corpo deitado. Há uma malga no chão sujo, pedaços de comida seca e bolorenta, um cheiro a bafio e a suor invade o nariz mais sensível demovendo quem tenta aproximar-se. Cartões espalhados, um gorro de lã e um casaco pequeno nas costas de uma cadeira sem perna. Na mesa de madeira, tosca e torta, um jarro de vidro de boca partida, uma mistela, zurrapa de algo vermelho, ou negro.
Tosse constante o corpo deitado.
Agonia em leito perto do fim.
Brilham as luzes pela rua.
Das janelas abertas, a sala cheia de gente, emana um calor apetecível. A lareira crepita em achas bem colocadas de forma a fazer o lume quente, acolhedor. As meninas da casa vestidas de vermelho, fitinhas brilhantes nos cabelos sedosos, compridos. Rapazolas de fato azul-escuro, camisa branca e gravata desafiam a lei da gravidade em cavalitas no corrimão.
Adultos bem vestidos, arranjados, simpáticos e generosos aparecem com os braços cheios de embrulhos, laços vistosos de todas cores e etiquetas a condizer. Acumulam-se na árvore de Natal enorme, quase a tocar o tecto, decorada em tons de dourado e vermelho. A mesa posta a preceito, toalha de linho, antiga, bordada, brilham os copos e os talheres aos quais alguém puxou o lustro, demoradamente. Há um tchim tchim constante no ar, gargalhadas, brilhos e sorrisos.
“Tens visto o Pedro?”, pergunta a voz cansada da avó, cerimoniosamente sentada no cadeirão de cetim, almofada confortável nas costas. O cabelo todo branco está arranjado para a ocasião, as faces num leve pó de arroz marcadas pelas rugas de uma vida e nos olhos uma imensa tristeza. Falta-lhe um filho ali. O seu filho. “Não, mãezinha .. há muito que ninguém o vê”! mente-lhe caridosa a filha mais velha.
Há muito .. ninguém.
*Cronista residente


> “Bom senso e expressão – é um problema”, ou talvez o seja a justificação, penso para comigo.
Quando se acha que o justificar é perder terreno, é dar armas ao inimigo, é sinal de fraqueza, de indecisão. Não me interessam os detalhes, quero a solução!, e não entendem que para se chegar à mesma é necessário esmiuçá-los, decompô-los, medi-los, avaliar-lhes o peso e a medida .. digo eu, de novo, para comigo.
Às vezes um não ou um sim bastam. Outras haverá em que é necessário um porque ou um porém, em qualquer dos casos almejo o dia em que a frontalidade seja reconhecida e não agredida, em que a honestidade de falas e sentires seja entendida e não deturpada.
Em que a explicação tenha eco, e esse eco tenha caco e substância.
Em que o todo seja de facto feito de partes, pequenas e minúsculas por vezes, mas ainda assim partes onde, sem elas, existiria um vazio que o tornaria esburacado.
Até lá, continuarei a cansar-me e pensar no como em vez de me concentrar no então.
*Cronista residente


(Reflexões I)
Cair na inconsciência pura de que “se me amas respeitas os meus gostos e eu faço o que quero porque não me apetece prescindir de nada que me dê prazer”, é um erro.
Um erro porque na vida temos de saber investir. Investir nos relacionamentos se, obviamente, os quisermos manter. Sejam eles quais forem. Investir, cuidar, mimar, regar e alimentar como se de um pequeno jardim se tratasse. Toda a gente sabe que quando o jardineiro se descuida, a árvore morre.
E o investimento, para além do na bolsa em queda no nosso pobre mercado financeiro, pauta-se em grande parte por cumplicidades, cedências e agrados.
Cedências de pequenas coisas que é indiferente que façamos ou não e só as fazíamos porque mais não tínhamos com que ocupar o tempo, e cedências em coisas maiores que em nome do amor que sentimos, abdicamos, não necessariamente em prejuízo de nós, mas obrigatoriamente em fomento de ambos.
Se isto acontecer de parte a parte, temos caso.
A minha avó ensinou-me na vida e desde muito cedo a fazer um simples exercício, change places, put yourself in the other’s shoes ou try it on another angle. É fácil. Se amo e quero preservar este amor, se para mim a harmonia é essencial, se o bem-estar físico e psicológico da pessoa que está comigo me é importante, porquê continuar a dar crédito a pequenas e malévolas atitudes que sei, porque sei e bem, vão magoar, humilhar e fazer sofrer a quem quero bem.
E que me quer bem. Que sei me quer bem.
Às vezes achamos que isto é uma perda de personalidade. "Eu? Tão independente e altruísta a perder-me em detalhes para agradar?”
Não é agradar. É construir. E no pedra sobre pedra tem de haver algo mais, tem de haver cimento. Caso contrário esboroar-se-á tudo qual castelo de areia em onda de arremesso.
Sem base.
Sem substância.
Sem nada.
E aí, bom aí podemos continuar alegremente cantando e rindo, dedicarmo-nos ao que nos dá prazer, sem concessões, sem cedências, sem prejuízo de coisa alguma.
Mas, sozinhos ou com o nosso umbigo que de repente, deixou de parecer tão atractivo como era.
* Cronista residente


Não questionamos, nem perdemos dois segundos a pensar na sorte que temos.
Nem nunca por nunca achamos que algum dia estaremos do outro lado do muro.
Mas podemos ir lá parar. Tão subtilmente quanto.
É fértil em iniciativas a época que se avizinha. Época de hipocrisia como gostam de apelidar aqueles que pouco fazem durante o ano inteiro e estarrecidos com a capacidade de ajuda de alguns que podem até menos que eles, num tão a propósito sentido desdém bem lusitano, amofinam, criticam, encontram mil e um defeitos e levantam centenas de suspeições em cima de quem age, de quem tenta fazer a diferença entre fazer muito pouco porque muito pouco se pode e não fazer rigorosamente nada.
É pena. Mas envolvida que estou ao longo do ano inteiro em pequenas iniciativas que primam por essa linha ténue, por essa ajuda imperceptível, por esse conforto que não tem preço, não se vende na farmácia nem tão-pouco aparece nas notícias, já estou vacinada contra a untuosa sonsice que vejo grassar em alguns nichos de gente de bem.
Há anos em conversa com um amigo muito amigo que já muito viu por esse mundo fora argumentava eu, estupidamente, o mesmo género de argumentos que ouvia papaguear à minha volta. Lembro-me do ar sereno e do meio sorriso triste com que me respondeu: se de tudo o que se fizer, de todo o dinheiro que se gastar, de todas as mercadorias, bens alimentares e outros que se enviarem conseguirmos salvar uma única vida, já tudo valeu a pena.
Lembro-me de ter ficado em silêncio. Uma única vida. Que a nós nos parece dado adquirido sem direito a devolução ou pagamento de renda.
É fértil em iniciativas a época que se aproxima.
Quem sabe não conseguiremos mais que uma vida este ano.






.. era um tempo mágico.
As últimas semanas do mês de Novembro eram tempos mágicos. Da despensa da avó saíam como que por milagre uma série de pequenas cestas de verga. Cestas com um cheio característico. O cheiro do Natal.
E todos os anos, por esta altura, ela esforçava-se por decifrar de onde vinha aquele brilho, aquela neve assim que as cestas eram colocadas no chão da cozinha.
Convenientemente embrulhadas as pequenas figuras de gesso, pintadas à mão, preparavam-se para tomar os seus lugares no presépio forrado a musgo apanhado no quintal. Um presépio decorado com pinhas, folhas amarelas secas dentro dos livros, uma prata amachucada e depois alisada que fazia de rio, pequenas ovelhas, pastores, meninos e meninas de prendas na mão, os Reis Magos, camelos e vacas e burros, e a “casa” do Menino Jesus.
Era com um cuidado ensinado e quase de respiração suspensa que se desembrulhavam a pequena manjedoura, o Menino e seus Pais, aquela vaca e aquele burro que tinham honras de com o seu bafo quente aquecerem a figura do pequeno bebé envolto num pano branco. Era um fim-de-semana de alegria antecipada, a decoração da casa levava um dia inteiro, com estrelas brilhantes feitas de papel e fitas de todas as cores a pender das portas. Na entrada principal uma grande coroa feita por ela com a ajuda da avó em pequenas e delicadas folhas verdes, pintalgada de vermelho e branco, dava as Boas-Festas aos visitantes. A vela acendia-se perto do presépio e assim ficava até à noite do dia 24 de Dezembro por altura do nascimento do Menino.
Não havia Pai Natal, a expressão era-lhe então desconhecida. As compras eram feitas em conjunto, grandes sacos e papel de embrulho para que em casa, uns dias antes do grande dia, serem todas embrulhadas com etiquetas personalizadas.
Os desenhos no papel pardo de sua autoria e a avó comprava grandes rolos de ráfia para fazer laços e prender os embrulhos cuidadosamente.
Avolumavam-se junto à árvore de Natal e ela sabia de cor para quem era cada um deles. Eram tempos diferentes, sem dúvida.
A alegria da surpresa só ultrapassada pelo pequeno-almoço copioso com direito a plum-pudding no dia 25 de Dezembro, quando ainda meio estremunhada e de camisa de noite às avessas chegava à sala e via as suas próprias prendas por abrir. Tempos em que tudo tinha o cheiro da castanha assada, das filhós a fritar, das fatias douradas carregadas de açúcar, do bacalhau que até se comia com gosto na consoada, e dos tachos ao lume, carregados de couve e batata, a gotejar perante o desespero alegre da avó.
.. tempo de férias e de celebração.
Tempo da Missa do Galo à meia-noite em ponto, casacos grossos, cachecóis e gorros de lã, e o beijinho no pé do Menino que tinha acabado de nascer para salvar os Homens .. dos homens.
P
*Cronista residente



> Paradas no estacionamento do pequeno centro comercial onde nos abastecemos quinzenalmente de tudo o que não se pode comprar no mercado (chamem-me antiga) à espera da manobra esquerda-direita-avança-recua através da qual, o senhor, dono de um sedan maior que o local escolhido para estacionar, tentava sair da camisa-de-onze-varas onde se enfiara. Literalmente.
Atrás de nós, vários carros à espera do mesmo, ainda que sem o privilégio de assistir à manobra.
Abro ligeiramente o vidro, desligo o som do rádio para poupar os tímpanos à interferência que o mesmo faz no subsolo, e espanto-me com a senhora dona de uns cinquenta e tal anos, carro novo e luzidio cheio de mossas e riscos, que me tenta ultrapassar pela esquerda sabe-se lá para quê, (é um verdadeiro mistério a mente de uma condutora de fim-de-semana, eu sei).
Olha-me de alto a baixo, não sei à procura do quê, estou sentada for Christ!, e abana a mão no ar como que a enxotar uma mosca. Avança mais um rodado de pneu para ficar entalada entre o meu carro e o pilar que veda o acesso aos chicos espertos dos nossos descontentamentos, ups, estacionamentos! Ao tentar recuar bate, obviamente, no meu carro. Aliás teria de ser feita de borracha para conseguir sair da enrascada. Ou isso ou perceber que o ponto de embraiagem é para ser feito enquanto se roda o volante.
Abro agora vidro todo e olho-a. A azáfama em rodar o volante era tanta que ao sentir-se observada, estaca de repente, batendo de novo no meu carro, e fica a olhar para mim, ligeiramente esgazeada.
O dono do carro larger than, acaba por conseguir soltar-se da apertada camisa e avança. Impacientes os carros atrás de mim aceleram, sem sair do sítio.
Ligo os quatro-piscas, saio do carro para observar as consequências dos encostos com que tinha acabado de ser mimada.
De ar espinoteado e aos guinchos, literalmente aos guinchos, alguém a ensine a gritar por amor da santa, a irreflectida condutora salta do banco com os braços no ar.
Mas tem alguma coisa pergunta-me tem? tem? .. ã?! Diga lá tem ou não tem? enerva-a o meu silêncio, a seguir ao “boa tarde” com que a brindei, enquanto observo o pára-choques do pobre sapo que se não fosse um carro bem-educado .. nada tem de facto, mas o da fresca e fofa ganhou uns riscos extra. Felizmente do lado do pilar.
Sem lhe dar resposta, entro de novo no carro perante o ar gozado da princesa, avanço e estaciono.
Mummy .. estou impressionada - Diz-me a minha mais que tudo na pura da ironia, conhecendo-me a falta de paciência para este tipo de, tipo de, isso mesmo!
Para dentro, garanto-Vos que nem os elementos mais afastados da família daquela espécie, confiando que haja mais, valha-nos!, foram poupados.
E depois, há outros dias em que a paciência é, de facto, minha companheira ;)
*Cronista residente

OUTONO
Os telhados que a minha vista alcança na janela com que me brinda o gabinete que ocupo tantas horas por dia, tornaram-se já de um tijolo escuro, fruto da humidade e da chuva miudinha que insiste em alertar-nos para o Outono que chega.
Em ala ordenada, as fachadas cinzentas, azuis claras e amarelas sobem a colina ligeiramente inclinada, uma de tantas da nossa gentil cidade. Ao fundo, bem ao fundo, numa esquina de vidro que a vista ainda abarca, as árvores oscilam em brisa serena que cheira a maresia, maré cheia. Agitam-se as bandeiras cravadas no passeio na despedida de um tempo quieto que, até há pouco, as fazia transpirar. O céu cinza claro, em abertas azuis, poucas, pequenas e redondas, como que acenos de uma estação que sabendo ter de ir não se quer despedir.
As andorinhas que ocuparam em chilreios os tectos da garagem partiram deixando os ninhos vazios e sem sons. Sem vida. Folhas grossas, na maioria ainda verdes, atapetam a entrada do edifício que é virado ao vento para desespero da senhora que, todas as manhãs, se afadiga de volta da vassoura.
É o Outono que chega, suave, em tons nacarados, não muito escuros, estação que tenta instalar-se, ainda cheio daquela timidez que o caracteriza, ele que não entende como pode o Inverno ser da brusquidão e do desatino, o Verão intempestivo arriscando secar gargantas e a Primavera cheia de humores e amores, tão inconstante que cansa.
É o Outono que chega sussurrando baixinho: veste um casaco.
*Cronista residente

E eu mais não faço que acreditar piamente nele.
A sério. E até sou defensora da filosofia de culinária que advoga quem não arrisca não petisca. Portanto, farto-me de empreender, colocar os bichinhos matreiros que me segredam aos neurónios todos os perigos e riscos, dentro da gaveta da mesa-de-cabeceira, calçar as botas de montanha ou o sapato de salto de agulha, e abarcar as oportunidades, futuras realizações, com algumas dúvidas sim mas sem grandes hesitações tal a forma como me entusiasmo, me dou, dinamizo e concretizo.
Eu sei que já disse mas repito: Obrigada João Severino, pela oportunidade, por manteres este actualíssimo Jornal que não agrada certamente a todos mas agrada a muitos para nosso gáudio e infelicidade de uns quantos, poucos ;), por seres assim, a pessoa que és.
E venham mais dois, de dois e de outros dois!
Um Beijo
Catarina Price

> A menina por detrás do balcão de madeira rugosa e antiga, a cheirar a pronto madeiras, com umas unhas que ficariam, à primeira, presas no meu teclado, levantou o sobrolho e olhou-me com uns olhos vazios articulando um diga lá, provocando em mim instintivamente o desejo de lhe responder lá.
Sorri, cumprimentei-a com um boa tarde, ela enfadada observa a unha do polegar num trejeito amuado de quem detectou uma minúscula falha no verniz imaculado.
Digo ao que venho, levantar um documento pronto na semana passada, em nome de fulana x para o que trago a respectiva autorização.
Falo depressa, eu sei. Normalmente quanto mais impaciente me sinto, mais depressa articulo. Interrompe-me a ladainha, com um não percebi nada exlamativo, enquanto traça as pernas roliças, tão roliças que não ligam com o pouco pano que as cobre. Não sejas má, admoestei-me.
Volta a mirar-me apreciando o casaco e descendo os olhos até ao que tenho calçado. Costureira, pensei, indiferente à consciência que me manda ser boazinha, boazinha.
Mais calmamente, volto a repetir o que me levou ao consulado. Um documento, que está pronto há seis dias, em nome de X, aqui tem a autorização para que eu o possa levantar.
Levanta-se o estafermo (consciência, qual consciência?), ajeitando um minúsculo corpete e abanando consecutivamente a cabeleira para soltar os caracóis. Os joelhos metidos para dentro e os pés nuns saltos de agulha a competir em comprimento com as unhas, estragam a aparência de menina mimada em boquinha de quase choro quando me responde: mas isso não é comigo! escandalizada com a minha usurpação do seu precioso tempo.
Fiquei esclarecida.
E abstive-me de lhe explicar que me era indiferente o que quer que fosse ou não com ela. Dirigi-me a outro balcão onde um senhor calvo e bonacheirão nos observava há dez minutos. Entrego a autorização. Recebo o documento.
Gosto do seu casaco, atira-me a energúmena à saída.

.. o tempo estava gélido, um frio de cortar os lábios que se esforça por manter húmidos, piorando a situação, não estava muito bem agasalhada, pensou, tenho de comprar um casaco daqueles, e sorriu. Como poderia?
O caminho a pé era imenso. Olhava os carros que passavam por si em marcha lenta, no trânsito insuportável das 19h00, observando as pessoas encasacadas no quente da viatura e pensava de si para si “tenho de tirar a carta, se não este Inverno, quem sabe para o próximo”, sorrindo de novo. Ao entrar no bairro admirou-se do presépio já feito com honras de centro de rotunda. Era um presépio simples, apenas três figuras, um menino de barro envolto num pano branco que arrepiava do frio que se sentia. Figuras de Pai e Mãe ladeavam a criança, num ar amoroso que a inclinação dos corpos dava a entender. Não havia manjedoura, nem animais com bafos quentes a fazerem nuvens no ar, e muito menos reis magos ou sem magia carregados de prendas para ofertar. Não haveria prendas neste Natal, pensou sem mágoa. As finanças não o permitiam, continuando a andar em passo apressado, apertando mais o casaco ao peito numa rajada gelada e repentina. Há coisas piores, há certamente vidas piores, martelavam os passos na calçada, a par do barulho do seu estômago vazio, barulho que a incomodava, tenho obrigatoriamente que passar no sapateiro, esta bota. A loja dos trezentos do Senhor Manuel estava cheia de gente. Gente como ela agarrada a um casaco fraco que não protegia. Pensou que se calhar não era má ideia passar por lá, talvez houvesse uma lembrança engraçada que pudesse comprar para a irmã ou para a mãe. A padaria da Dª Emília, um pouco mais abaixo na mesma rua, igualmente cheia. Como os entendia, sorriu de novo, aquele cheiro a pão quente e estaladiço quase a agoniava tal a fome que tinha.
Entrou na quietude do pequeno apartamento, modestamente mobilado, e acendeu a vela. A luz estava cortada pela companhia que não se compadecia com atrasos, malditas contas, pensou ao passar na fruteira e retirar a única maçã com ar de roída.
Dez horas de trabalho em cima e ainda um texto de cento e quarenta e cinco páginas para dactilografar, rever e entregar dois dias depois. Tem de ser, pensou enquanto ajeitava uma manta gasta nas pernas que gelavam. Vai fazer-me jeito este dinheiro para a conta da luz.
Não deu pelo apagar da vela que cansada, de pavio gasto e quase sem cera tombava pingo a pingo em cima da pilha de papéis limpos, escritos e revistos, que terá terminado lá pelas quatro da madrugada.
Triste surpresa a acolheria quando acordasse.
.. se acordasse.
*Cronista residente

Nascido no seio da família mais importante da pequena aldeia da Beira, um irmão mais novo, educação rígida e disciplinadora ou não fosse o pai o advogado mais conhecido de toda a região.
Era um bom patrão, o patrãozinho. Acompanhava os seus homens na ceifa, levantando-se às 5 da madrugada para o mata-bicho na mesa de pedra. De regresso ao meio-dia para o copioso almoço fazia questão da salada de tomate bem temperada como todos gostavam, o pão casqueiro cortado em grossas fatias regado de azeite, o cabrito assado e o vinho – o bom vinho tinto que eles próprios produziam, abastado na mesa cheia. Fazia contas à divisão de alqueires, tudo medido e bem dividido.
Apreciavam-lhe a honestidade e o rigor. E se era de azeitona que se tratava ninguém se despedia sem o azeite de grau quase zero em proporção ao trabalho feito. Gostava de contar histórias durante a vindima, fazendo rir os homens de barba rija e rugas profundas, mãos calejadas e secas do trabalho árduo, lembrava os tempos do seu pai em que tudo era tão diferente, e muitos deles escondiam a lágrima comovedora ao recordarem-se que para ele tinham trabalhado também. Vários eram os pastores das redondezas que lhe conheciam o bom coração na anuência ao pedido para passarem pelas suas terras sempre mais verdes e férteis que as dos outros, no consentimento de pernoitarem com os rebanhos nos tempos de estio em que a fonte miraculosa acalmava a seca árida que se fazia sentir em muitos quilómetros em redor. Pagavam-lhe com um cabrito ou um borrego na altura do parir, carne tenra e saborosa que aparecia miraculosamente congelada no pequeno frigorífico abastecido a gerador.
Eram tempos diferentes em que o homem tinha uma palavra que honrava com a vida se preciso fosse e que por nunca o acusassem de mentiroso.
Os ciganos itinerantes conheciam-lhe igualmente a disponibilidade. Apareciam conduzindo enormes carroças de cavalos mais garbosos e altos que aqueles que puxavam as charruas por ali, famílias inteiras de mulheres e dezenas de crianças de vestes esquisitas e fala diferente. Respeitava o seu chefe, tal como este o respeitava a ele. Um homem enorme sempre vestido de negro, chapéu de abas largas e barba por fazer. E numa das propriedades deixava-os descansar uns dias, montando o seu mercado de quinquilharias, abastecendo-se nas feiras, até ser altura de partirem de novo. Na noite da despedida, num até para o ano e bem-haja, havia festa à volta da fogueira. Cantares e dançares de uma gente alegre, violas e acordeões em estridente melodia, e uma peça de caça a assar lentamente no espeto.
Era a forma como lhe agradeciam, brindando igualmente os seus filhos com pequenas lembranças feitas ou compradas para a ocasião.
.. encontrei há uns tempos, por mero acaso, um par de brincos brilhantes, moedas enfiadas umas nas outras numa corrente pesada que acho nunca usei mas guardei. Oferta a uma garota de dez anos, na altura, que de olhos brilhantes de assombro assistia à festa pela primeira vez.
Memórias? E saudades.
*Cronista residente


سوء الفهم
Malentendu
Mißverständnis
Недоразумений
Malentendido
Mal entendido
Há-os em todas as línguas.
E enquanto o homem for homem, animal racional, ser pensante, motivado e motivador, nem sempre pelos mesmos princípios, com os mesmos objectivos mas, ainda assim.
É pena! As letras, esses bens preciosos e luzidios, carregados de significado maior que as suas sílabas que quando bem arrumados e com música dão origem à melhor das poesias, à mais brilhante serenata, à composição preciosa que se estuda hoje, feita, pensada, organizada há séculos. À obra que se lê sempre, ontem tal como hoje aposto ainda que amanhã.
Quando mal arrumadas, colocando verbos sem substantivos, adjectivos sem nada para adjectivar, ausência de pronomes de posse ou pequenos artigos, fundamentais, ou simplesmente gritadas do alto de uma fúria, da ira, assumem a vez do agressor, ferem, magoam, pedras atiradas não ao charco mas contra a moral de alguém, o credo de alguém, a inocência de alguém, provocando danos maiores que os sinónimos, superiores aos antónimos, irreversíveis.
É pena, mas acontece.
Pior ainda: dizê-las com um determinado intuito oculto esperando, vã esperança, que o interlocutor não chegue lá, não alcance, não entenda, levá-lo por meandros, normalmente pouco claros, a aceitar o que se quer, a anuir a uma qualquer vontade que não a sua, a própria, indiferente ao seu querer, e depois, surpreendidos com a rapidez, o golpe de vista, o vens de carrinho, alterar-lhes o sentido, a forma, o som e o tom, esperando de novo, esperança ainda mais vã, que nisso, também se creia.
É então a altura ideal para o não queriam mais nada! virar costas. E seguir.
PS_ Não, a crónica de hoje não tem nada a ver com o resultado das eleições de Domingo. Acho que já assumi por aqui a minha inaptidão para escrever sobre política, não já? ;)
*Cronista residente


A maioria não tão ternurentos e inspiradores como o Pequeno Casper, mas ainda assim libertá-los. Hoje, por um ou outro motivo mais ou menos pessoal – que são as crónicas de alguém que acha que escreve se não parte de si mesmo também? – decidi escrever sobre a libertação de fantasmas. Temos tantos, todos, não temos? Eu tenho.
Libertar fantasmas.
Abrir as grandes janelas de portadas verde-escuro de par em par e deixar entrar a brisa amena, morna, brisa que entra e procura em todos os recantos, cantos escondidos, atrás dos móveis, remoinho de cotão, procura-os, enxota-os, afasta o cheiro inodoro, a forma imperceptível, a cor incolor.
Varrer memórias penosas como se de pedaços de papel velho e amachucado no chão se tratassem. Para que servem? para nos atrasar a marcha prendendo-nos a coisas que já passaram? já acabaram? Lixo. Puro lixo.
E recomeçar. Não confundir com começar de novo que é algo em que não acredito. Não há começares de novo quando começamos algo no dia em que nascemos. Mas podemos recomeçar, acreditando que basta um ligeiro desvio para não cometermos os mesmos erros. Será possível os erros serem sempre diferentes? É uma questão a desenvolver, quem sabe num próximo texto se esta vontade por limpezas continuar.
Recomeçar a acreditar, com alguma fé no que quer que seja, devagar, primeiro de cócoras, joelhos no chão, uma mão que se ergue, um braço que se apoia no apoio mais próximo. Enfim de pé. E surpresa das surpresas?! Não é que o mundo não parou? Não é que tudo continua, igual, diferente, melhor ou pior, mas lá. Ainda lá.
Sorriso nos lábios, é altura para aprender – a queda deu-nos uma perspectiva diferente da realidade na ponta do nariz; a perspectiva terrena e térrea e o desejo de voltar a erguer.
A confiança? Restaurá-la em papel fino, tracejado firme, de preferência a tinta-da-china, delicadamente, tão delicadamente como o toque das asas de uma borboleta.


Contudo permito-me relembrar-vos que as faltas de respeito por sentimentos e sentires alheios, as gozações e as pressões psicológicas que numa ou outra altura da vida nos invadem a morada não são só da autoria dos jovens adolescentes com problemas de sobra em casa porque o pai bebe ou a mãe vende o corpo, o irmão mais velho rouba e a irmã de 14 anos está grávida. Por vezes são os jovens assim à partida “culpados” numa sociedade que tem de ter uma desculpa plausível e perfeitamente aceitável para tudo, aqueles que menos “ondas” levantam e que mais ajudam o próximo.
Neste livro fala-se de bullying. E de sobrevivência. O meu conto, escrito há quase dois anos falava de esperança. Num e em outro caso a primeira responsabilidade é e será sempre nossa. Dos Pais. Dos adultos. Daqueles que é suposto não só justificarem os acontecimentos como arranjar uma solução para os problemas. E depressa.
__
.. relatava o regresso às aulas, o início de um novo ano lectivo, a animação que se vivia no pátio no primeiro dia de aulas.
Os pequenos que pela primeira vez iam à escola entravam meio a medo, agarrados às saias das mães e das avós, carregados com mochilas maiores que o seu tamanho, bem penteados, aprumados. Ficavam todos juntos no meio do pátio, protegidos pelas mesmas saias que não largavam, à espera que os viessem chamar, de ouvir o seu nome, de voltar costas à mãe ou à irmã mais velha, ou por vezes à avó, e seguir caminho, direitos em fila, para a sua sala.
No grupo dos mais velhos a animação era outra.
Grandes abraços, beijinhos às meninas, perguntas sobre as férias, os aniversários, se tinham ganho aquele par de patins com que tinham sonhado todo o anterior ano lectivo, e para onde tinham ido de férias. Conversa solta de quem se conhece já, a quem se sabem defeitos e qualidades. Conversa de turmas inteiras, misturadas no pátio, olhando esguelha para os mais novos e sorrindo, quem sabe lembrando os seus próprios receios naquele dia há anos atrás.
Os professores misturavam-se, afagavam os pequenos, conversavam com os mais velhos, frases como “estás tão crescido!” “que bonita estás este ano!” ouviam-se, e entre sorrisos e perguntas, passava o tempo da recepção.
Um olhar mais atento, mostrava que alguns dos alunos mais velhos usavam umas faixas amarelas em redor dos braços. Coloridas, brilhantes e bem engomadas. E eram esses mesmos alunos que se aproximavam agora do grupo das “mães galinhas” que ternamente conversavam com os pintainhos assustados, que lhes mostravam a bola que traziam consigo apontando para o campo de futebol, ou lhes passavam as senhas para o almoço explicando onde era o refeitório.
Lembro-me que a minha filha, com apenas 5 anos na altura, depois de ouvir a história me dizia que gostaria de ter uma madrinha assim quando entrasse na escola. E vir a ser uma delas quando chegasse a altura.
Era bom que este conto, por irreal que possa parecer, pautasse não só a vida dos nossos filhos na sua entrada na escola, nas várias escolas, como também e talvez mais importante ainda as recordações dos pais que criam filhos “bullyicos”.
Por vezes sem o saber.
Ainda que sem o saber.
*Cronista residente


Dante constava na lista daqueles que deveriam receber o perdão. No entanto, era exigido que estes aceitassem participar numa cerimónia de cariz religioso onde se retractariam como ofensores da ordem pública.
Dante recusou-se a semelhante humilhação, preferindo o exílio.”
Difícil por vezes fazer valer os nossos princípios, a nossa percepção, a nossa visão, complicado fazer valer argumentos, contra tudo e contra todos ou com poucos do nosso “lado” como se entrincheirados agíssemos. Principalmente quando nos sabemos com razão, acima de tudo quando a temos, quando a única possibilidade de a tornarmos visível é “rachando meia dúzia de cabeças”.
Assobiando, cantando e rindo? Fácil. Confortável.
Passamos a pertencer ao núcleo, aos que pensam igual, aos que não levantam ondas, aos que não argumentam mesmo sem concordar, aos que nem sequer chegam a ter de concordar ou não, dado que não é essa a escolha que lhe colocam habilmente no caminho, com dissimuladas setas de néon a apontar para onde ir.
Em nome de quê? Ah fértil a questão! Em nome da aceitação.
Aceitação social, pessoal, profissional, “amical” (existe isto?).
Aceitação.
Ou estás comigo ou estás contra mim! Porquê? É assim tão fútil, tão fraco, tão ténue o argumento que nada o pode pôr em causa? E o facto de o questionar, por construtivamente que se pretende, é um ameaçar da estrutura? Não me lixem! E perdoem o calão.
Que fraca estrutura sem betão é essa que um sopro lhe corrói os alicerces? E se é mais que um sopro em que se baseia então o vendaval?
“Entre o perdão e o exílio” Nada é tão dramático nos dias que correm, felizmente, mas o lidar com uma consciência inquieta que tem de se adormecer porque, que tem de se calar porque, que quase se mata porque, é-o!
Acreditem.
*Cronista residente

Mãe .. Mulheres .. Mães!
> E depois há alturas em que parece que o mundo te caiu em cima.
Sim, o mundo, o globo terrestre com todas as kiloteslas e nanogramas que se lhe conhecem.
O obstáculo intransponível suga-te a energia, a luz, a fonte e o calor. Apetece-te colocar a cabeça entre as pernas, como os senhores paramédicos dizem para se fazer quando suspeitamos de quebra de tensão, e desistir. Apetece fechar portas e janelas e colocar o aviso: não estou, morri com um secreto desejo que ninguém acredite e volte mais tarde.
Apetece amaldiçoar tudo e todos e acima de tudo, todos quantos julgamos responsáveis pela infelicidade que nos caiu em cima aos trambolhões. E há vários. Há, invariavelmente e sempre, imensos.
E depois acordamos num profundo coma com os filhos a pedir o leite da manhã ou ajuda para ligar o televisor. E no sorriso de olhos brilhantes de uma cara laroca, aos pés da cama de onde achámos não nos voltaríamos a levantar, vamos buscar a força escondida que nos esmaga, também ela, o peito, e secamos as lágrimas, ensaiamos um sorriso e dizemos para nós mesmas, porque as mulheres nisso são fantásticas e conseguem, conseguem sim mesmo que não acreditem, e conseguem sempre que se propõem conseguir. Dizemos, bom dia espelho!
E vestimo-nos, e preparamos o leite, e olhamos pela janela, e ligamos o televisor, e vamos às compras com uma lista infinita que de nada nos serve porque a esquecemos no fundo da mala, e comovemo-nos com a venda de t-shirts para alegrar meninos deficientes, e olhamos os nossos e damos graças por não estarmos dependentes da venda de nenhuma t-shirt para lhes colocar um sorriso nos lábios, eles que nos acordaram de manhã de sorriso brilhante e um: mãe preciso-te. E compramos, cozinhamos, arrumamos, e ainda lavamos o carro, cozemos a mochila e escovamos os ténis, arrumamos brinquedos, sacudimos o pó, aspiramos o chão enquanto respondemos aos gritos, por cima do barulho do aspirador, a uma enfiada de perguntas sobre tudo e sobretudo sobre nada. E brincamos, sentadas no chão, pernas à chinês, vestimos bonecas ou colocamos rodas em carrinhos, há sempre peças a mais, e rimos com eles e eles connosco e nós de nós.
E preparamos banhos com bolas de sabão a pegar no chão da casa-de-banho que acabámos de limpar e suspiramos por ter de o fazer de novo enquanto as rebentamos por entre gargalhadas e cabelos a escorrer. E apanhamos todas as toalhas do chão e gritamos que se despachem, estão ao frio, que tontos! Vão-se constipar!
E ao jantar levantamo-nos trezentas vezes porque de mil algos nos esquecemos, e vigiamos que comam a sopa e tudo, a fruta descascada e as respostas intermináveis às perguntas infinitas que nunca acabam, meu Deus, será que nunca acabam? E deitamo-los com histórias de embalar, fazemos as vozes e os sons, eles sorriem de olhos pestanudos quase, quase a adormecer num abraço mãe adoro-te, e eu adoro-te a ti meu filho, meus filhos, todos. Meus.
E voltamos ao silêncio da casa, a máquina da roupa ligada, a loiça a escorrer, o almoço do dia seguinte orientado, as mochilas com os lanches, com os livros, os chapéus e os casacos, a roupa pronta aos pés das camas e a sopa? Oh Céus, e a sopa que pegou! E mais, mais?
E somos assim.
Ainda bem. Só assim poderemos passar por tudo de novo e outra vez.

De repente, em outra fila, um tom agudo e maldoso na voz de uma madona maquilhada de mais, gritante de mais sai a frase mas a criança está no carro e não na sua barriga pois não? rindo em seguida, galhardia galhofeira e ridícula, tirada ainda mais a despropósito tendo em consideração que a interpelada era uma avó de avançada idade que empurrava um carrinho com um bebé ao mesmo tempo que tentava equilibrar os sacos com as poucas compras que levava.
Olhei ao meu redor, não sem antes me ter apercebido do olhar aflito da princesa que me aperta a mão com mais força. Risinhos grotescos de quem não arreda um pé para ceder o lugar. Alguns miram o tecto do supermercado como se de repente os anúncios das promoções tivessem voado e lá ficado colados. Outros a ponta do sapato, provavelmente lamentando não lhe terem dado aquela puxada de lustro necessário antes da saída de casa. Será que alguém ainda engraxa sapatos?
A madona continua a rir, caricata, e a avó de semblante triste e ligeiramente corada de vergonha parada no final da fila que, por acaso, tinha um sinal prioritário de acompanhantes de crianças, grávidas e idosos.
Ela idosa. Ela acompanhante de criança de colo.
Ela escorraçada, desumanamente escorraçada, por um ser que eu, gostando pouco de juízos (em voz alta), me apeteceu apelidar, em tom igualmente estridente, de vil.
Faço um sinal discreto à avó, cedendo-lhe o meu lugar na fila e passando para o final da mesma.
E lamento.
Lamento profundamente ter de me ver rodeada de gente cada vez mais estúpida.
Polidez e urbanidade, onde moram?
*Cronista residente

Quem a caracterizou de aborrecida?
Provavelmente os mesmos que insistem em ver a vida a preto e branco mesmo com tanta cor, pura e misturada, com que pintar esta vivência breve que nos concedem.
Setembro é o regresso à rotina, são as listas dos livros, os cadernos e os dossiers, a mochila a escolher se tiver de ser, são os horários a encadear, mais um esforço em cinco minutos preciosos de final de dia e esperemos que não chova, é o conhecer de novos colegas, não sei quantos professores, números de sala a memorizar e toda a planta de uma escola nova, enorme, cheia de gente crescida, muito mais crescida que a secundária promete. As senhas de almoço – coisa infantil – dão lugar a um cartão magnético, carregado à semana, controlo à distância para todos os que, mesmo sem razão, não confiam.
É o olhar, por um lado apreensivo por outro curioso de todos quantos regressam agora à preciosa rotina de aulas, exercícios, livros a cheirar a novo e professores para conhecer. É o arrumar de tudo o que serviu às férias, num até para o ano que se sabe breve, o regresso às sopas e aos pratos de forno, convenientemente postos de lado num Verão que foi curto, a escolha da fruta madura para as tardes passadas nos doces, geleia e marmelada que guardo religiosamente na última prateleira do armário da cozinha, o limpar o pó ao precioso livro de receitas que herdei de minha Avó, escrito a tinta permanente, tão permanente que se mantém clara e legível desde que foi iniciado em 1943. São as consultas de rotina, a compra da roupa para a nova estação, mais umas botas que as do ano passado deixaram miraculosamente de servir, nem sei como, espero que parem de crescer, credo!, esta nova geração vai certamente ultrapassar-nos! Inicia-se a temporada dos espectáculos, “vergonhosamente” também ela abandonada ao sabor do silly da season, a escolha do que ver e quando e a tirada da pequena mulher lá de casa “já tenho saudades do Mercadinho de Inverno, mummy” risos soltos olhando a janela e vendo o sol ainda radioso mas já não tão quente a brilhar lá fora.
É Setembro, o regresso à rotina, à boa rotina. Não somos nós todos feitos delas?
* Bom inicio de aulas a todos quantos as podem iniciar * e parem só um segundo para pensar na sorte que têm ;)
*Cronista residente


Férias são férias. Uma série de dias, consecutivos de preferência, sem horários a cumprir, refeições a preparar a horas certas, crianças mandadas para a cama porque no dia seguinte há uma enormidade de deveres a cumprir. Corolário de um ano de trabalho, de um ano de estudo, de um tempo, por vezes, sem tempo para nada.
Férias. Que podem ser passadas em casa, num acordar preguiçoso, uma saída tardia, uma viagem de comboio que se goza de maneira diferente de todas as viagens de comboio que se fazem no resto do ano. Uma ida à praia sem a preocupação do trânsito e dos mosquitos, o preparar de uma refeição que é indiferente que comece às 22h porque não há obrigações de despertador no dia seguinte. Férias para relaxar, descansar, fazer o que nos der na real gana. Por vezes penso que fazemos pouco isto. E precisamos. A mente precisa, o corpo também. De férias. Pensamentos mais leves, roupa a condizer, chinelo no pé e aquela ideia que temos ainda uma eternidade até sermos chamados a cumprir, executar, obedecer, realizar. Já passei férias em imensos lugares, sozinha e acompanhada, com trabalho – outros trabalhos – e sem trabalho nenhum. E de todas as vezes, a perspectiva do tempo de férias faz-me sempre sorrir. É talvez a única altura do ano em que nada me é pedido. Ou será a altura em que nada peço a mim mesma? Acho que é isso que estou prestes a descobrir.
Até Setembro J

do que por aquilo que ele pensa
Victor Hugo
Arranjava-se devagar, com a lentidão própria de quem não o faz porque gosta, mas porque tem de ser.
Maquilhou-se cuidadosamente, pouco baton, alguma sombra a condizer com o blush, risco e rímel e apreciou o efeito á luz ténue do tocador.
Gostou.
A avó dissera-lhe tantas vezes que os seus olhos eram amêndoas. Da cor e do feitio. Herança de uma bisavó. Procurou o fruto, sem encontrar. Até o brilho, aquele faiscar. Onde estariam?
O vestido assentava-lhe que nem uma luva. Feito à medida e apertado duas vezes antes do dia D para desespero da Dª Mercinda, a costureira, que levava as mãos à cabeça de cada vez que ela entrava no atelier. Mas que andas tu a fazer que estás outra vez mais magra?
As vozes, a animação e os passos para a frente e para trás elucidavam-na que as pessoas estavam a chegar, a pendurar casacos, a entrar na sala, à espera.
Lá fora era quase noite, o Sol tendo-se já posto no horizonte, havia ainda uma luz fraca, um raiar alaranjado no céu, que a Lua cheia e brilhante tentava apagar esquecendo-se de onde lhe vinha o luar.
Olhou pela janela. À parte dos vários carros parados à porta, a rua estava praticamente vazia. Um vizinho passeava o cão, a padaria apagava as luzes, na esplanada estava um casal envolto no ar de quem acredita estar apaixonado, de manga curta, com este frio!
Desde quando sonhara com aquele dia? Não sabia. Mas imaginava-o diferente.
Muito diferente.
No seu imaginário o cavalo branco já deveria estar preso nas argolas do patamar, resfolegando, batendo os cascos impacientemente no chão. E o príncipe, esse rapaz sincero e bonito de grandes olhos como os seus, e deveria estar neste preciso momento a subir a escadaria, com uma túlipa na mão e promessas de felicidade acabas de proferir.
Tola! Pára de sonhar, rapariga. E contudo, que seria do Homem sem o sonho?
*Cronista residente


Emoção (II)
A casa estava fechada.
Janelas entaipadas onde outrora ondulavam as pequenas cortinas brancas, imaculadas e a cheirar a sabão azul e branco.
Os chorões haviam há muito deixado de “chorar”. Tristes ramos sem folhas que já não varriam o chão nem murmuravam histórias de encantar aos pássaros, também estes haviam voado para longe, sem folho para aninharem.
O portão outrora pintado de verde, brilhante, estava enferrujado, tinta lascada, sinal de abandono. Foi com esforço que aplicando todo o seu peso, conseguiu que se abrisse.
Lá dentro, desolação.
O jardim dantes cuidado, as roseiras príncipe negro e as outras que se carregavam de pequenas rosas de santa teresinha não eram mais que um emaranhado de ramos secos, sem norte nem rumo.
A pequena horta onde ainda se via de joelhos no chão e unhas negras de terra, um labiríntico amontoado de raízes, secas, que haviam crescido sem água e sem frutos. A terra revolta sinal que os cães, conseguindo saltar o muro, ali faziam as suas camas.
Um gato gordo, branco, correu até ao fundo do jardim rasando-lhe as pernas, assustando-a.
Lentamente deu a volta à casa. Parou no pequeno pátio e procurou o som familiar do papagaio que a brindava com um God save the Queen em tom trocista. A gaiola estava vazia, igualmente ferrugenta. A manta que a cobria, tricotada pela avó em tons garridos, era um trapo rasgado, pendurado ao vento, preso num arame teimoso e espetado.
Forçou a entrada na sala pelas portadas do pátio e aí, sem esforço, conseguiu entrar. Admirou-se se seria a única a fazê-lo. Lá dentro a penumbra, envolta em pó que rodopiava na réstia de luz como que em dança de boas vindas, deixou vislumbrar os grandes sofás cobertos de mantas brancas, o chão sujo, tapetes enrolados a um canto. Não havia luz. Voltou atrás e abriu de par em par as portadas das janelas.
Voaram um pequeno morcego e algumas borboletas da roupa num bater de asas assustado. A seus pés vários insectos para os quais já não tinha nome, disparavam em todas as direcções. Sentiu-se intrusa em casa própria.
Passou à sala seguinte: a sala da avó, a sua sala. O piano. Negro, enorme, coberto de pó que ficava preso aos seus dedos enquanto acariciava o marfim das teclas, a madeira outrora polida e brilhante. Parou. Escutou ainda os sons que trepidantes reproduziam as melodias ali tocadas. Todas. Tantas.
A cozinha pareceu-lhe estranha. Sem as grandes panelas ao lume num vapor que volteava até à chaminé, sem os pratos constantes na mesa como quem espera companhia na certa, e o tabuleiro da Família Real, onde estaria?
O quarto, esse estava intacto. Como se de alguma forma nem os insectos, nem as borboletas da roupa, o vento ou o sol ou a chuva tivessem conseguido autorização para o invadir. A cama perfeita, feita, lisa, como se lembra que a avó sempre deixava antes de sair cedo. O tocador ainda numa profusão de pequenos cremes, a escova e o pente, a rede de cabelo. Os cortinados corridos, pesados, as fotografias de família na parede, bem alinhadas. O avô, os bisavós, o tio.
Ela. Ela pequena, rechonchuda, a andar de baloiço lá fora no jardim. Meias até ao joelho, saia aos quadrados com peitilho, uma camisola de gola alta. Estava frio naquele dia, lembra-se bem. Sorriso aberto, sardas no nariz, a emoção de experimentar pela primeira vez o baloiço que as duas haviam construído e pendurado entre gargalhadas, no rosto pequeno.
A emoção.
Ela, de cicatriz na sobrancelha, fruto de uma afoita incursão no recreio dos rapazes da escola que frequentava e da fuga intempestiva logo que descoberta, ainda de bata cor de tijolo com a placa do nome orgulhosamente bordada no peito. Ela, no dia de final de curso, olhos brilhantes, diploma na mão. Ela, de vestido de noiva, figura de porcelana, braços desnudados e luvas até ao cotovelo. Tantas, ela.
Virou-se muito devagar para o espelho. Olhou-o, olhando-se, e sorriu.
Já não era nenhuma daquelas que lhe sorriam presas na parede. A vida tinha-se encarregado de a modificar, moldar, fazer crescer. Mas a emoção de voltar a casa essa mantinha-se imperturbada. Emoção avó? Havia tantas vezes perguntado.
Quase que apostava que a resposta agora seria: está nos regressos, menina.
*Cronista residente


(unsourced)
> Sem saber ler nem escrever.
Sem saber ler nem escrever ajuda a filha a fugir ao genro, de cada vez que entra em casa avinhado. Esconde os netos debaixo da cama, tranca a filha na casa de banho minúscula, oxalá ele nunca se lembre de lá a procurar, a porta é de papel, não sei que será se lhe dá um encosto.
Sem saber ler nem escrever, metro e meio de gente encurvada e mais baixa, estou muito mais baixa! enfrenta então o colosso, em voz de mel terna como quem embala um menino, fervendo por dentro na vontade que voe a frigideira que tem na mão na direcção do crânio do borracho.
Cozinha-lhe os ovos mexidos como ele gosta, cheios de sal e com um pouco de leite, que há que ensopar todo o vil espírito que consome há horas no bar do Alfredo. Amanhã já tenho outra conversa com ele, conta enquanto dobra a roupa, perfeitamente engomada. Conversa de homem para homem - fazendo-nos sorrir, se ele pensa que enriquece à custa dos Meus está enganado.
Velha, só tu me entendes! E ninguém faz ovos como tu! rosna-lhe a besta - Anda come-os e cala-te para te ires a deitar meu sem-vergonha! é o máximo que lhe diz, ainda arrepiando caminho quando o vê olhá-la de modo ameaçador.
Isso não pode continuar Dª Alice, dizem-lhe mansamente que sabem não gosta que se metam. Gosta assim de desabafar, como se fosse com ninguém, enquanto afaga a mão de quem a ouve, mas isso não dá direitos a sugestões. Pois não, mas que fazer? Olhe, aturar e cara alegre. Enquanto eu for viva lhe garanto que não toca nos Meus. Ai não toca não que ainda tem cara para levar umas bofetadas – deixando-nos a pensar quantas será que já levou, quantas evitou, em quantas se envolveu para salvar os meus como diz cheia de propriedade e preocupação.
Sem saber ler nem escrever.
Vela pela vida dos seus e por quem lhes faz mal.


> Grandes árvores ladeavam a casa pequena, fazendo-a parecer ainda mais pequena.
Uma casa simples, de telhado vermelho, chaminé fumegante.
Duas janelas viradas à estrada, com imaculadas cortinas brancas que cheiravam a sabão azul e branco.
As grandes árvores pen
diam para o chão.
Ramos grossos que na Primavera se carregavam de pequenas, minúsculas, folhas verdes e brancas, varriam o chão em dias de vento.
Chorões, dissera-lhe a avó ensinando-lhe os nomes das coisas. Chorões? de chorar? e porque choram as árvores, avó?
Choram de emoção, respondia sorrindo. Avó ? o que é a emoção?
E a avó apontava, o seu braço fino, a mão de dedos compridos, dedos de pianista, apontava o céu em noites escuras estreladas e desenhava histórias a negro e prateado.
Ali um cisne em voo, aqui um guerreiro de arco e flecha, mais além a Lua brilhante, vaidosa do seu Luar.
A avó tinha um nome para todas as coisas e ensinava-as como quem aprende pela primeira vez. Cheia de pormenores, histórias e estórias que não se sabe se reais ou inventadas.
Emoção? Avó, o que é a emoção?
E a avó mergulhava as mãos na água cálida do mar em dias quentes de praia, deixava os salpicos soltarem-se dos dedos e molhava-lhe os olhos.
E procurava ninhos de andorinhas para que ela escutasse o piar fino das crias em busca de atenção. Ou pegava num bicho-de-conta para que observasse como se enrolava tentando passar despercebido.
Avó ? E ajoelhadas no pequeno jardim que circundava a casa tratavam dos bolbos Bobos? Não querida, bolbos.
Plantavam, cuidavam, viam crescer. Colhiam. Joelhos no chão e unhas sujas de terra - banho menina, já para o banho!
A emoção? E esperavam, durante todo o Verão esperavam que a ginja se diluísse na garrafa de açúcar amarelo, colocada ao sol. E no Inverno, antes do jantar, bebia um cálice à senhora crescida, um cálice da bebida mágica que aprendera a fazer. Ou a colher de xarope de cenoura quando a garganta arranhava. Uma colher de sopa bem medida do remédio dos Deuses. Tão doce.
E naqueles dias em que as grossas gotas de chuva faziam desenhos nas janelas e nada se podia fazer lá fora, cozinhavam os doces em grandes panelas, cheirosas, dedos mergulhados, peganhentos, caras enjoadas.
Avó? E tricotavam. Conjuntos para bonecas, verdadeiras peças de arte com as quais mimava a sua Nancy, e via as mãos rápidas da avó num ponto mais complicado do bordado.
Esta é para ti. A tua primeira toalha de mesa.
De que choram as árvores avó?
De emoção, querida
A emoção? Aprendia-a, sentindo.
*Cronista residente


28 dias é um filme sobre escolhas. Sobre decisões. Sobre consequências.
> Com Sandra Bullock num papel parcialmente dramático e sério, coisa que ela faz tão bem ou melhor quanto os carregados de humor, diga-se à laia de passagem, o filme 28 dias relata-nos os 28 dias de internamento de uma bem sucedida escritora, rica, de vida fácil, alcoólatra e toxicodependente. 28 dias que chegam para que passe pelo demoníaco processo da limpeza do organismo, para que procure respostas, para que perca alguém de quem tinha começado a gostar, para que deixe de gostar de alguém que achava amar. Inte
rcalando viagens da memória ao passado, onde se percebe o porquê do actual problema, com pura sátira aos procedimentos levados a cabo pela clínica para fazer acreditar num “brighter future” o filme aborda, ainda que levemente e sem as imagens chocantes de marca, o caos do vicio.
28 dias. De vida suspensa numa segunda oportunidade para fazer com o percurso que um dia recebeu algo diferente que noites de excessos, figuras tristes, gritarias, acidentes e dois romances de dúbia qualidade, bem ao jeito do que tantos gostam.
Gostei do filme. Não é nenhum tratado pelo mundo da droga, não é um romance com cenas escaldantes mas aborda o íntimo. A alma. E a vontade.


Cesare Pavese
Pergunto-me, por vezes, Quão só estamos?
Entro no café de manhã e vejo-os quase todos os dias, dois homens, de alguma idade, mesas separadas, em frente a uma torrada e um copo de leite, não olham a televisão ligada aquela hora para a noticia madrugadora, nem o jornal, diligentemente colocado ao fundo das mesas. Sozinhos.
Numa outra mesa, disfarçada pela coluna que separa a zona de balcão da das mesas, uma rapariga distrai-se diariamente em jogos no telemóvel. Permanece desde que entro até que saio. Sozinha.
No restaurante, à hora do almoço, a rapariga a quem tenho acompanhado a evolução da gravidez, senta-se invariavelmente na mesma mesa, fixa a televisão numa necessidade de se manter alheada da conversa animada dos grupos que vão enchendo o local. Sozinha.
Há uma senhora de idade que pede uma sopa e um cesto de pão, ocupa a mesa mais recôndita, agarrando com força um saco e uma pequena bolsa, e fita as unhas enquanto come. Sozinha.
Ao fim-de-semana aparece o sem abrigo das tranças, figura caricata, muito alto, muito magro com o cabelo comprido todo entrançado. Lança-nos um meio sorriso quando lhe estendo o saco de papel com fruta e sandes, murmura algo que não consigo entender e segue o seu caminho. Igualmente sozinho. Quase invisível.
Na esplanada que gostamos de frequentar ao fim-de-semana depois do passeio matinal à beira rio há já três caras conhecidas. Pessoas de idade, olhos fitos na água, por vezes levemente distraídos com a algazarra dos mais pequenos, por vezes esboçando um sorriso triste no meio de rugas, que, estou certa, não apareceram sozinhas.
Quão só estão tantos?


> So if you ask me “do you believe in God?” forgive me if I ask you back “Does God believe in me?”
A frase pertence a um filme visto recentemente intitulado Aritmética Emocional (2007) e a sinopse era demasiado sucinta para me alertar para o magnífico filme que me esperava. Em 1945 um jovem acolhe duas crianças no campo de concentração de Drancy (França) – o campo intermédio entre a detenção e o encaminhamento para Auschwitz, protegendo-as e subornando os guardas prisionais nazis na altura em que era suposto serem todos enviados para o destino fatal. As crianças salvam-se, são separadas e a realidade aparece-nos quase 40 anos depois quando descobrem que o seu protector ainda está vivo.
O encontro tantos anos, amarguras, traumas e memórias depois, vai necessariamente provocar um reviver de tudo o que afinal ainda nem tinha tido tempo de ser esquecido. Sem se focar no horror trágico da vida suspensa num campo de concentração, este filme aborda de uma forma terna e corajosa o que fizeram as pessoas que por lá passaram e não morreram - a culpa que carregam, o esforço em não deixar morrer a memória de tantos, a infelicidade que acabam por espalhar ao seu redor por nada nem ninguém parecer digno de pena e merecedor de amor depois de uma experiência daquelas. De uma forma doce mas persistente, que não admite devaneios, a Fé é apresentada como se deixássemos de a ter por momentos na nossa vida, ainda que não desista de nós. Esta noção está bem forte na frase “Does God believe in me?” Como se pudéssemos de repente deixar de acreditar em algo que sabemos é real e presente. E necessário. Como se precisássemos de um tempo para nos reestruturarmos
, agruparmos os pedaços, moldar de novo a mente e a alma e seguir em frente.
Com uma interpretação brilhante de Susan Sarandon (uma das minhas actrizes favoritas) aconselho vivamente.
Até porque, acima de tudo, é bom que o Mundo não reviva, mas também não esqueça o que foi. Como foi. Porque foi.
Susan Sarandon
*Cronista residente



O rapaz à minha frente, olhos azuis imensos que no espanto parecem ainda maiores.
A expressão é cansada, roupa puída mas limpa, sapatos maiores que o número a calçar, cabelo louro em desalinho e um pedaço de cartão na mão.
O meu olhar interrogativo pousando o livro em que me havia concentrado, desbloqueou-lhe a fala. Falava de Sida disse a medo, e há muito que ninguém me dirige assim um sorriso, senhora. Corou ligeiramente. O pedaço de cartão empunhado à sua frente, como que a protegê-lo. Os olhos pregados nos meus, à espera.
Equacionei as hipóteses. Outro sorriso que em nada me custava, custar-me-ia a leitura de um livro que poderia retomar em breve. Que estava a gostar de ler, no alheamento daquele jardim deserto, numa tarde de Sábado, sozinha. Outro sorriso alimentaria a alma daquele ser que ora num pé ora em outro, se equilibrava à minha frente, meio corado, mal vestido, carente de atenção. Sem nada pedir em troca.
Sorri de novo. As pessoas andam muito ocupadas nas suas vidas, proferi consciente do chavão. Sente-se, convidei.
Sentou-se, a medo, e completamente chegado ao ponto oposto do banco de madeira, e a conversa surgiu solta como se conhecidos fossemos.
Confessou-me ser seropositivo, abandonado pela família, ao cuidado de uma qualquer associação da nossa Cidade. Contou-me como passa os dias tentando alertar as pessoas para o perigo da sida. Além do cartão, de sua autoria, que me mostrou orgulhoso das palavras gritantes escolhidas para chamar a atenção, havia um pequeno saco preso à cintura com uma série de panfletos que distribuía a quem passava. Principalmente nas escolas, refere, é necessário alertar os jovens para isto, menciona como se jovem já não fosse. Mas ninguém me liga nenhuma, conclui tristemente, olhos no chão, as pessoas não querem saber, sabe? Passam como se eu fosse invisível. Na maioria dos dias é assim que me sinto. Invisível. Por isso o meu espanto há pouco ao abordá-la. O seu sorriso, senhora, gagueja ligeiramente e volta a corar.
Invade-me, de novo aquela sensação de que padeço vezes de mais.
A falta de auto estima alheia é algo que me incomoda. Seja na forma de um desconhecido seropositivo, de uma colega de mal com a vida, de uma amiga de mal com o amor.
Falei-lhe da vida que nem sempre é a que sonhamos.
A que queremos. E a que merecemos.
Mas da obrigação premente que temos de a tentar amenizar, vivendo-a. Ganhaste um dia uma corrida tu, digo-lhe pela juventude que me inspira - Não está ainda na hora de deitares fora o troféu.
O meu sorriso passou para aqueles lábios sofridos, de menino homem a caminho do nada.
E partiu sereno, costas direitas, e mão a ajeitar o cabelo em desalinho.
Oxalá consiga entregar os panfletos do dia, pensei, e com isso acordar uma ou outra consciência, ele que sofre na pele e na alma o resultado de ter tido a sua adormecida. ©
*Cronista residente


Nós coesos, nós lassos, nós em laço solto de fita bonita encaracolada para turista ver, nós que permanecem para sempre e outros para os quais a palavra sempre encerra tempo demais, paciência inútil.
Nós que damos na vida, com Filhos e com Pais, amigos e amantes e até os outros que nada nos sendo, algo significam.
Em tempos falei de nós. Mas hoje falo de cordas.
Cordas duras de pescador, feitas de sal e areia, cordas brancas e finas que seguram velas ao vento, cordas de cetim brilhantes e vaidosas do brilho que espalham, cordas de saltar, meninas de carrapito em alegres brincadeiras, cordas às quais nos agarramos, sobre as quais nos apoiamos.
Cordas que são os Amigos que nos acompanham a existência e que se chegam num “estás bem?” quando algo lhes diz que não estamos.
Cordas.
Feitas de cuidado e carinho, amizade e preocupação, genuíno interesse desinteressado.
Não importa a distância a que as estendemos, nem há quanto tempo as não medimos.
São cordas que nos enlaçam e entrelaçam e nos garantem que sim, amanhã é sem dúvida outro dia.


Livro, Na 1ª Pessoa do Singular
Fui escrito.
Aliás tudo começou quando fui escrito.
Escrito, corrigido, alterado, cortado e acrescentado. Operação difícil, vos garanto. E dolorosa também. Foram muitas as vezes em que me apeteceu intervir. Conversar com o meu autor, explicar-lhe que naquela linha de pensamento ficaria bem um outro cenário, hipótese ou explanação. Mas não o posso fazer. A Obra não influenciará o Criador é uma das sonantes alíneas que temos de respeitar logo que somos escolhidos.
Vejo-o cansado, à luz de um candeeiro que já conheceu melhores dias, tentando que do fio de pensamento tão claro na mente saiam as palavras coerentes e significativas que se propôs relatar. A operação pode demorar apenas uma semana, como oiço dizer aos meus companheiros de prateleira na livraria onde vim parar; mas desses eu desconfio um pouco já que o arrumar de letras pretende-se um processo pensado, amadurecido, logo: demorado, ou pode demorar uma eternidade. De tal forma que a páginas tantas (lá para a centésima terceira) o construtor de letras volta atrás e começa a fazer-me cócegas apagando parte do que havia escrito. Suspiro nestas alturas e concentro-me no tecto.
Pronto.
Estou finalmente pronto. Resta-me aguentar impávido a última intervenção. Olho com surpresa para o local para onde sou atirado, impresso, fotocopiado até me colocarem um espartilho duro e colorido. Capa, oiço dizer. Esta aperta-me particularmente. E assim de relance não me parece que tenha alguma coisa a ver com o que tenho cá dentro. Enfim. Pressas.
Passaram-se alguns anos. Fui lido, manuseado, encadernado de novo, por vezes com papel rafeiro de cor indefinida, outras com papel autocolante que dói horrivelmente quando alguém tenta reencadernar-me. Fui citado, estudado, arrumado na prateleira onde por vezes espirro disfarçadamente por causa do pó acumulado. Ensinei. E aprendi.
Hoje, ligeiramente inclinado, partilhando o espaço com uma orgulhosa vela de cheiro a baunilha, sirvo de apoio a outros como eu. Desejoso de voltar ao activo. Porque esperam? Leiam-me!
__
Porque se aproximam tempos de férias, para quem pode ter férias, e a disponibilidade de tempo para leituras e afins aumenta. Digo eu. Porque é bom ler e “invadir castelos construídos pelos autores”, que ao sabor das páginas que viramos nos abrem a porta da sua criação, do seu trabalho, da sua imaginação. Porque ler faz bem à mente, à saúde, à percepção, aos neurónios ou simplesmente porque sim.
*Cronista residente


> Entregaste o documento, perguntou-lhe em voz arrastada, assim que a sentiu meter a chave à porta. E compraste pão? Mandei-te uma mensagem pra comprares pão. Para que raio queres tu o telemóvel se nem te dignas a olhar para ele de vez em quando para ver se há alguma coisa importante?
Também te liguei duas vezes à hora do almoço, queria saber onde andavas. Almoçaste com alguém? De certeza que sim pra não me teres atendido. Ainda gostava de saber se as tuas colegas de almoço também não atendem os maridos quando eles ligam. Provavelmente coisa boa não andam a fazer!
E tu, almoçaste com quem afinal? Não foi com aquele rufia de cabelo oleoso que te cumprimentou no outro dia quando te fui deixar ao escritório, pois não? é que se me dizes que foi c'aquele metro e noventa de sorriso colgate, amanhã vou lá perguntar-lhe se ele não tem mais nada pra fazer q'assediar as mulheres dos outros.
Entretanto tenho um recado. A vizinha de baixo veio cá bater outra vez a queixar-se dos lençóis que penduras no estendal. Estão muito compridos, diz, tapam-lhe a luz na cozinha. Vê se tens cuidado, um dia destes ainda tos corta. Está gira a gaja. Mais magra, mais arranjada. Ficou sem homem, foi o que foi, que me contou a do primeiro no outro dia no café.
Estou tão cansado, chegas-me os chinelos? Estão no quarto mas a lâmpada fundiu-se, a propósito a mensagem que te mandei também falava na lâmpada que se fundiu, a de cima no candeeiro do tecto, não consigo ver nada nem chegar ao outro candeeiro. Chegas-mos?
E lembraste-te do meu jornal. Estou aqui o dia todo sem ler um jornal porque tu nunca te lembras de mo trazer. Que vais fazer para o jantar? Tiveste tempo para pensar nisso pelo caminho? A sopa acabou se vinhas a contar com ela.
Chegou a casa exausta.
Pousou o saco do pão no balcão da cozinha e tirou rapidamente os bifes para temperar. Na sala a ladainha do marido parecia um rádio a tocar baixinho uma música irritante. Reparou que estava descalço quando passou para a casa de banho, de saída, atravessou o quarto às escuras, pegou nos chinelos e colocou-lhos aos pés, ao mesmo tempo que lhe deixava o jornal no braço do sofá. De regresso à cozinha, fritou os bifes, bateu uns ovos para uma omeleta cheia de salsa como ele gosta, preparou uma sopa de pacote pensando intimamente “que se lixe”.
Guardou tudo e dirigiu-se de novo à sala com um bilhete na mão.
“tens o jantar no forno, venho mais tarde”.
__
Porque por mais que se partilhem vidas há realidades solitárias, ainda que acompanhadas.


Carlos Drummond de Andrade
> Sentada na laje de pedra tantas vezes percorrida, olhar perdido naquele sol que se resguarda nas águas paradas, atenta ao grasnar das gaivotas em terra, virá tempestade?
Sentada, pernas suspensas no rio, acolhedor o marulhar sereno da pequena vaga que bate na pedra. Recorda. Outras vidas por ali passadas, correrias de horários a cumprir, passeio de amor com amor, a namorada que acena, ferrenha a tabela apertada do último barco do dia, o rapaz parte mas o seu coração ficou, certamente, do lado de cá, a criança debruçada que tenta tocar na água perante o olhar atento da mãe, aventura arriscada plenamente protegida.
O casal idoso de mão dada, ele conta-lhe um detalhe da história que começa com foi daqui que ela sorri, já o ouve mal, mas sente-lhe a cadência ternurenta das palavras.
Os jovens estudam, sentados no chão, pernas à chinês, compenetrados folheiam livros enormes e vão tomando algumas notas, há um que se levanta agora e vai buscar várias garrafas de água. Os outros agradecem, levantam a cabeça numa pausa merecida, alguém estica as costas e as pernas, e voltam, cabeça baixa, concentrados.
O barco atraca no pequeno porto, movido a ondas moles de uma maré baixa. As gentes saem, correm, o autocarro na paragem larga uma nuvem bafienta e arranca num ronco de motor. Há uma interjeição no ar! Vamos ter de esperar pelo próximo!
Sentada na laje de pedra, tantas vezes percorrida. Puída, brilhante, esquecida.
Aquieta-se o rio ao pôr-do-sol.



Olho a frase e desmonto-a.
Parto-a em pequenas partículas.
Avalio-lhes o peso e o significado.
Procuro-lhes os detalhes.
Gosto do exercício simples de analisar a palavra e o seu significado, acabando muitas vezes por lhe minimizar o impacto.
No outro dia a propósito de outro ditado ouvi uma discussão sobre a importância dos obstáculos na vida. Verdadeiros. À primeira vista, intransponíveis. E da força. A força, a persistência, o credo, a resistência e até o medo que nos fazem transpô-los. Ultrapassá-los. Deixá-los para trás. Resolvê-los.
Estaríamos mais bem preparados se tal não acontecesse? Era a pergunta lançada para o ar.
Se não perdêssemos o sono na tentativa de encontrar uma solução para o problema que, de repente, nos caiu em cima?
Se não nos consumíssemos na tentativa de minorar as consequências, por vezes terríveis, para aqueles que amamos e que de nós dependem?
Se não errássemos por labirintos de cenários, tantas vezes considerados, tentando fazer a opção correcta na parafernália de escolhas que desembocam todas em outro cruzamento, sem sinalização.
Se não nos puníssemos, como se de culpa fossemos feitos, pelo que aconteceu tentando perceber que fizemos, por que caminho enveredámos, que escolhas desconsiderámos para nos vermos na situação que, à primeira vista, não sabemos como resolver.
Talvez.
Talvez a vida não soubesse a vida sem os desafios constantes a que estamos expostos simplesmente por respirarmos. Mas era bom que lhe encontrássemos, por vezes, um equilíbrio. Mais calmo. Mais morno. Previsível mesmo, em que as únicas surpresas permitidas fossem as boas surpresas.
Chegados a esta conclusão tivemos de rir da utopia. Seria a vida mais fácil?
*Cronista residente


Alguns homens vêem as coisas como são e dizem «Porquê?»
Eu sonho com as coisas que nunca foram e digo «Por que não?»
Bernard Shaw
Iniciativa.
Tomamos tantas na vida.
Às vezes dou por mim a pensar, e se eu não fizer primeiro, será que tenho o mesmo “eco”?
Eco. Uma palavra de que gosto. Eco que procuro. Porque é preciso haver eco. De interesses, de afagos, de palavras que assim sentimos retornam em vez de simplesmente baterem na parede e caírem no chão, de gestos e de surpresas.
Iniciativa.
É a de telefonar a saber, lembrar um aniversário, uma data importante, e outra que sem importância alguma nos traz o som terno e carinhoso da voz que queremos ouvir, de escrever à família afastada, e porque não à que está perto também. De conversar com aquela amiga que precisa de um desabafo, mesmo que tenhamos de empoleirar o telefone no ombro porque algo mais premente está a requerer também a nossa atenção. De ir para casa a pensar na surpresa que se gostaria de fazer, na prenda que sabemos gostariam de receber, na refeição a confeccionar porque faz parte dos gostos de quase todos que há sempre quem de esquisitice seja feito.
De trabalhar o dia todo, com o fito no bem comum, na engrenagem que não pode parar, não deve.
Iniciativas.
O nosso pensamento concentrado nos outros e nas suas necessidades, afastam-no naturalmente de nós próprios, mas por outro lado será por pensarmos nos outros, naqueles que amamos, que, de alguma forma, nos compensamos? Talvez.
Iniciativa.
Já pensaram que o Mundo gira à volta dela e o pilar para que tudo funcione é quem a toma? Quem age. Quem espalha os seus conhecimentos, o seu humor e amor, carinho, a repreensão quando necessária, a paz.


Catarina Price*
Será Portugal esta velha cerzideira?
> Conheciam-na como um porto de abrigo. Daqueles onde nos abrigamos sempre que algo não corre bem, ou corre menos bem. Ou não corre como esperado. Levou a vida a limpar joelhos esfolados, a preparar chás calmantes, a contar histórias que fizessem a mente do interlocutor viajar por países distantes, miríades tentadoras. Ouviu vezes sem conta os mesmos dramas, as mesmas acusações à vida, essa madrasta, secou choros e acalmou raivas, proporcionou momentos de bonança, desculpando, relativizando como só ela o sabia fazer. Serena, dona de um sorriso inalterado no rosto pequeno e meigo pronto, pronto, já passou e passava. Sabiam com o que podiam contar e em puro desabafo contavam-lhe os desaires, os desgostos, culpando a educação, o trauma, o namorado e o marido, a mulher ou o patrão, e até a pedra da calçada. A tudo respondia sem voz, com um aceno de cabeça que se calculava compreensivo e cordato.
Cresceram. Formaram famílias. E continuavam a procurar o colo tentador de quem nunca achava que seriam verdadeiramente culposos.
Até ao dia em que sentados à grande mesa da sala, na companhia de quem haviam escolhido por companhia, e com uma prole considerável, continuavam no queixume que os caracterizava quando ainda eram todos criança. Ela sentada num sofá a cerzir tecidos numa altura em que já ninguém cerzia, ouvia-os.
Apreciava-lhes o semblante carregado, a culpa alheia tão esmiuçada como se fossem personagens de uma qualquer peça de teatro a quem o encenador tivesse trocado os papéis. Os pequenos, em seu redor, sempre os pequenos em seu redor no adivinhar do que era o seu feitio condescendente.
Pousou o trabalho, fitando-os.
Fez-se um silêncio natural de quem se preparava para receber mais um pano quente sobre a mente inquieta.
Está na altura meninos, proferiu. Está na altura de arregaçarem as mangas e fazerem algo pela vossa vida, meus queridos. Pelo bem inestimável que é a vida que vos foi concedida. E está também na altura de crescerem definitivamente e tomarem a rédea das vossas decisões. Deixando de culpar o destino como se a ele fossem alheios. Deixando de culpar o passado como se o não entendessem. E dando azo ao futuro que carregado de oportunidades vos espreita às escondidas e arrepia caminho sempre que vos vê desistir.
A mais pequena da prole de crianças guinchou sentada na cadeira e abanou os bracitos como que a concordar com o que ouvira.
Eles? Bom, primeiro ficaram algo furiosos pela admoestação. Tão diferente do discurso de pronto, pronto com o qual cresceram, sabendo que naquele colo eram inimputáveis e quase sempre desculpados de todos os trambolhões que insistiam em dar ainda que pedras não houvesse pelo caminho. E cabisbaixos, interiorizando o que havia sido dito, partiram prometendo fazer pela vida, o que queriam fazer da Vida.
Dizem que continua a cerzir, ainda hoje. Já rodeada de bisnetos que lhe procuram o colo e o leite morno aquecido ao fogão com uma colher de mel, para acalmar as dores do mundo, diz ela, mais enrugada mas ainda de olhos negros, vivos, atentos e protectores.
E sempre o sorriso no rosto pequeno.
Sorriso de quem acredita que todos serão, um dia, capazes.


Lincoln , Abraham
Façamos de conta que ainda podemos.
Que o país que nos foi legado pelos nossos antepassados merece todas as oportunidades e que nós, os falantes e pensantes, temos a obrigação de o tornar viável.
Façamos de conta que temos um caminho a seguir. Um caminho verdadeiro de todos e para todos; que as classes operárias têm empregos justos e vencimentos adequados. Que todos temos uma casa para viver, um bom sistema de saúde, e acompanhamento adequado aos nossos filhos. E que vivemos felizes só com isso.
Façamos de conta que os nossos dirigentes se preocupam genuinamente com o povo.
Connosco. Que eleitos pelo mais democrático dos sufrágios, justificam o voto de todos e de cada um com o respeito com que deve ser encarado o arbítrio de responsabilidade e confiança que um voto representa.
Façamos de conta que Portugal vale a pena. Que as pessoas estão felizes, são justas, conscientes, que os jovens estão devidamente preparados e encaram o futuro com ânsia e felicidade, que as crianças correm felizes em parques escrupulosamente mantidos para o efeito e que os idosos com elas partilham os risos e as alegrias de quem já ensinou o que tem para ensinar sem que a mais esteja obrigado.
Façamos de conta que não há barracas, nem gente a viver mal, nem gente com fome, nem pedintes na rua. E que as pessoas não olham para o lado quando, por acaso, ainda encontram algum.
Façamos de conta que os professores são respeitados, como seres imbuídos do espírito da partilha e do ensino e de fazer chegar a palavra escrita e a história falada a todos os cantos do país. Sem excepções.
Façamos de conta que as universidades preparam os profissionais do futuro na justa medida em que os mesmos irão ser necessários. E vamos acreditar que assim o desemprego desaparecerá, as condições de vida melhorarão, e não faltarão médicos e calceteiros, engenheiros e sapateiros, físicos e canalizadores.
Façamos de conta que podemos mudar tudo aquilo de que hoje nos queixamos.
Que deixámos de cruzar os braços à espera da desgraça, carpindo a desgraça, e que fomos, de mangas arregaçadas, ao seu encontro. Vencendo-a. Com a firme convicção que mudamos para melhor. Trabalhando em conjunto e em consciência social.
Façamos de conta que sim, porque para brincar ao faz-de-conta tem de ser com algo que realmente nos faça sonhar, querer e mudar.
Com a realidade, não vale.
(Nota: “Façamos de conta” – expressão descaradamente roubada a Mário Crespo)
* Catarina Price é colaboradora residente do JORNAL DO PAU

Como quereis o equilíbrio?”
David Mourão-Ferreira
Sexto sentido. Coisa muito nossa, sim, do plantel feminino desta humanidade.
Sensação inata ou pressentimento adestrado ao longo da vida. Umas vezes com a intuição de acertar, outras com a certeza que errámos. Depois.
Sexto sentido é aquele bichinho que vive dentro do nosso peito e que nos mima com uma pancadita suave mas sobressaltada sempre que algo tem mais algo que o algo que se vê. Confuso? De facto.
Sexto sentido.
De adivinhar, de prever, de considerar. De elaborar cenários e tecer extrapolações, conclusões por vezes precipitadas e o filme logo todo à frente, muito à frente, às vezes tão à frente que se tropeça numa impossibilidade deitando a estrutura bem armada pelo cano.
Definição do dicionário: Capacidade de perceber intuitivamente factos, situações, significados etc. Não evidentes, independentemente dos cinco sentidos orgânicos. Pomposo? Também.
João Eduardo Severino
Outros à PAUlada
A Insustentável Beleza dos Seres
Amor e uma cabana (a dos parodiantes)
Antigos alunos do Liceu de Macau
Comadres, Compadres & Companhia
O homem que cheira mal dos olhos
Pleitos, Apostilas e Comentários
Semeador de ventos... e nuvens











