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Pau Para Toda A Obra

Pau Para Toda A Obra

O SEXTO SENTIDO




Catarina Price*




Natal? Para todos?


Range o vento na janela, uiva à porta fechada. Salta pela frincha do tempo e invade a assoalhada. A manta rala e curta não tapa o corpo deitado. Há uma malga no chão sujo, pedaços de comida seca e bolorenta, um cheiro a bafio e a suor invade o nariz mais sensível demovendo quem tenta aproximar-se. Cartões espalhados, um gorro de lã e um casaco pequeno nas costas de uma cadeira sem perna. Na mesa de madeira, tosca e torta, um jarro de vidro de boca partida, uma mistela, zurrapa de algo vermelho, ou negro.

Tosse constante o corpo deitado.

Agonia em leito perto do fim.



Brilham as luzes pela rua.

Das janelas abertas, a sala cheia de gente, emana um calor apetecível. A lareira crepita em achas bem colocadas de forma a fazer o lume quente, acolhedor. As meninas da casa vestidas de vermelho, fitinhas brilhantes nos cabelos sedosos, compridos. Rapazolas de fato azul-escuro, camisa branca e gravata desafiam a lei da gravidade em cavalitas no corrimão.

Adultos bem vestidos, arranjados, simpáticos e generosos aparecem com os braços cheios de embrulhos, laços vistosos de todas cores e etiquetas a condizer. Acumulam-se na árvore de Natal enorme, quase a tocar o tecto, decorada em tons de dourado e vermelho. A mesa posta a preceito, toalha de linho, antiga, bordada, brilham os copos e os talheres aos quais alguém puxou o lustro, demoradamente. Há um tchim tchim constante no ar, gargalhadas, brilhos e sorrisos.

Tens visto o Pedro?”, pergunta a voz cansada da avó, cerimoniosamente sentada no cadeirão de cetim, almofada confortável nas costas. O cabelo todo branco está arranjado para a ocasião, as faces num leve pó de arroz marcadas pelas rugas de uma vida e nos olhos uma imensa tristeza. Falta-lhe um filho ali. O seu filho. “Não, mãezinha .. há muito que ninguém o vê”! mente-lhe caridosa a filha mais velha.


Há muito .. ninguém.


*Cronista residente