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Pau Para Toda A Obra

Pau Para Toda A Obra

O SEXTO SENTIDO



Catarina Price*


Será Portugal esta velha cerzideira?

> Conheciam-na como um porto de abrigo. Daqueles onde nos abrigamos sempre que algo não corre bem, ou corre menos bem. Ou não corre como esperado. Levou a vida a limpar joelhos esfolados, a preparar chás calmantes, a contar histórias que fizessem a mente do interlocutor viajar por países distantes, miríades tentadoras. Ouviu vezes sem conta os mesmos dramas, as mesmas acusações à vida, essa madrasta, secou choros e acalmou raivas, proporcionou momentos de bonança, desculpando, relativizando como só ela o sabia fazer. Serena, dona de um sorriso inalterado no rosto pequeno e meigo pronto, pronto, já passou e passava. Sabiam com o que podiam contar e em puro desabafo contavam-lhe os desaires, os desgostos, culpando a educação, o trauma, o namorado e o marido, a mulher ou o patrão, e até a pedra da calçada. A tudo respondia sem voz, com um aceno de cabeça que se calculava compreensivo e cordato.


Cresceram. Formaram famílias. E continuavam a procurar o colo tentador de quem nunca achava que seriam verdadeiramente culposos.

Até ao dia em que sentados à grande mesa da sala, na companhia de quem haviam escolhido por companhia, e com uma prole considerável, continuavam no queixume que os caracterizava quando ainda eram todos criança. Ela sentada num sofá a cerzir tecidos numa altura em que já ninguém cerzia, ouvia-os.

Apreciava-lhes o semblante carregado, a culpa alheia tão esmiuçada como se fossem personagens de uma qualquer peça de teatro a quem o encenador tivesse trocado os papéis. Os pequenos, em seu redor, sempre os pequenos em seu redor no adivinhar do que era o seu feitio condescendente.

Pousou o trabalho, fitando-os.

Fez-se um silêncio natural de quem se preparava para receber mais um pano quente sobre a mente inquieta.

Está na altura meninos, proferiu. Está na altura de arregaçarem as mangas e fazerem algo pela vossa vida, meus queridos. Pelo bem inestimável que é a vida que vos foi concedida. E está também na altura de crescerem definitivamente e tomarem a rédea das vossas decisões. Deixando de culpar o destino como se a ele fossem alheios. Deixando de culpar o passado como se o não entendessem. E dando azo ao futuro que carregado de oportunidades vos espreita às escondidas e arrepia caminho sempre que vos vê desistir.


A mais pequena da prole de crianças guinchou sentada na cadeira e abanou os bracitos como que a concordar com o que ouvira.

Eles? Bom, primeiro ficaram algo furiosos pela admoestação. Tão diferente do discurso de pronto, pronto com o qual cresceram, sabendo que naquele colo eram inimputáveis e quase sempre desculpados de todos os trambolhões que insistiam em dar ainda que pedras não houvesse pelo caminho. E cabisbaixos, interiorizando o que havia sido dito, partiram prometendo fazer pela vida, o que queriam fazer da Vida.


Dizem que continua a cerzir, ainda hoje. Já rodeada de bisnetos que lhe procuram o colo e o leite morno aquecido ao fogão com uma colher de mel, para acalmar as dores do mundo, diz ela, mais enrugada mas ainda de olhos negros, vivos, atentos e protectores.

E sempre o sorriso no rosto pequeno.

Sorriso de quem acredita que todos serão, um dia, capazes.


* Cronista residente

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