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Pau Para Toda A Obra

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Carmindo Mascarenhas Bordalo*

 

 

PORTUGAL NÃO É A ALEMANHA...

 
> A propósito da visita de Sócrates à Alemanha têm corrido rios de tinta.
Sinal de vassalagem?
Sintoma de que vai estourar bernarda que exige intervenção externa?
Seja como for, é bem significativo do estado a que chegámos.
Mas é curioso e irónico que Sócrates tenha ido à Alemanha neste momento. Pena que lá não tenha aprendido alguma coisa com o caso Guttenberg.
Karl-Theodor zu Guttenberg, até há poucos dias Ministro da Defesa alemão, era (e talvez continue a ser) um dos mais populares políticos do seu país. Jovem, sorridente, riquíssimo, bem falante, oriundo de uma família da velha aristocracia bávara, casado com uma elegante bisneta de Bismarck, Guttenberg, com menos de 40 anos, teve uma ascensão política meteórica. Já se lhe augurava o topo da escadaria do poder.
Já conhecia a personagem, que me parecia um caso a acompanhar: tinha todas as condições para ser Chanceler da Alemanha - portanto, há que tristemente reconhecê-lo, chanceler da Europa.
Mas Guttenberg queria, paralelamente, manter uma carreira académica, que lhe atestasse o prestígio intelectual. Por isso, apresentou um Doktorarbeit (ou noutra terminologia, um PhD) para obter o grau de Doutor.
Todavia, foi denunciado pelo Prof.  Andreas Fischer-Lescano, da Universidade de Bremen, que a tese de Guttenberg continha abundantes plágios, isto é, aproveitamentos da obra de outros autores sem a devida citação da fonte. Comprove-se aqui: http://www.kj.nomos.de/fileadmin/kj/doc/zu_guttenberg.pdf. Mesmo para quem não saiba alemão, facilmente se vê (págs. 114 a 119) que Guttenberg violou as mais elementares regras de honestidade académica, ao limitar-se a copiar, sem indicar a origem, artigos científicos de autoria alheia.
As sondagens mostram que Guttenberg continua popular.
Merkel tentou o mais que pôde que ele não caísse.
O seu Doktorvater (orientador da tese), o prestigiadíssimo Prof. Peter Häberle, da Universidade de Bayreuth, defendeu-o até ao ponto de ser ele próprio a cair no ridículo (já lhe chamam o Professor Ingénuo), vindo a apresentar uma retractação pública.
Ainda assim,  Guttenberg demitiu-se. E a  Universidade de Bayreuth revogou o grau que lhe conferira.
O clamor público da comunidade científica, a indignação de reputados académicos, uma comunicação social acutilante e que procura factos, levaram a este desfecho.
Estou certo que Sócrates se riu a bandeiras despregadas quando soube do desfecho do caso Guttenberg e suspirou de alívio por Portugal não ser a Alemanha.
Aqui tudo se admite: curricula forjados, licenciaturas nulas, invocação de pós-graduações inexistentes, certificados falsos.
Assim, percebe-se por que é o nosso Primeiro-Ministro intimado a ir à Alemanha e não o contrário.
 
*Professor Catedrático Jubilado, colaborador residente
 
 
 

 

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