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Pau Para Toda A Obra

Pau Para Toda A Obra

carmindices

 

 

 

Carmindo Mascarenhas Bordalo*

 

 

QUEM SÃO OS INDEPENDENTES DE PASSOS?
 
"No Governo ou vai estar o Partido Socialista ou vai estar o PSD, não vamos estar os dois".
Passos Coelho foi peremptório nesta afirmação.
Passos deu a sua palavra a Portugal de que não levará os socialistas (e não especificamente Sócrates) para o governo.
PSD e CDS alcançaram ontem uma confortável maioria absoluta: cerca de 50% dos votos e, pelo menos, 129 deputados (em 230).
É uma ampla base social e política. 
Sócrates nunca a teve - e, mesmo assim, governou sozinho durante seis anos.
Atendendo ao outro compromisso de Passos - o de levar o CDS para o governo - poderíamos concluir que o PS está irremediavelmente arredado do poder.
Mas...
Quer no último dia de campanha, quer no discuro de vitória, o presidente do PSD afirmou que, além de se coligar com o CDS, colocará personalidades independentes no executivo.
A questão reside aqui: quem são esses independentes?
Cavaco levou para o governo independentes ligados à direita (como Roberto Carneiro e Bagão Félix) ou sem qualquer peso político (caso do polémico Carlos Borrego). Não alteraram a correlação de forças interna ou as linhas definidas pelo PSD.
Guterres contou com muitos independentes no seu primeiro governo. Mas tratava-se de pessoas que haviam participado nos "Estados Gerais" do PS, colaborando na elaboração da alternativa socialista de 1995.
Portanto, até hoje, as vagas de independentes que integraram governos ou eram ideologicamente próximas do partido do poder, ou não tinham relevância política, limitando-se a uma participação governativa de carácter técnico.
Ora, os independentes de Passos Coelho não fazem parte de uma plataforma de fundo como a dos "Estados Gerais" - e, isto, porque o PSD não apresentou nada do género.
Serão figuras do centro-direita, embora não militantes do PSD ou do CDS? Parece-me improvável, pois, nesse caso, não mereceriam tanto ênfase nos discursos de Passos.
Restam, pois, duas alternativas:
- ou serão personalidades sem filiação política definida, mas que se destacam pela sua competência técnica em determinadas áreas (por exemplo, Medina Carreira como Ministro das Finanças);
- ou serão figuras que estabelecerão pontes com o PS.
Se for o último caso, Passos terá de ter muito cuidado.
Está a pisar gelo muito fino.
Prometeu não levar o PS para o poder.
Não pode, sob pena de desonestidade, trazer o PS para o governo, a coberto de pretensas independências de quem tem afinidades notórias com os socialistas.
Não pode deixar entrar pela janela o que garantiu que saía pela porta.
Não se pode comportar como o alcoólico que bebe vinho de olhos fechados, porque prometeu não olhar mais para a bebida.
Estranhamente, Passos não se contenta com a confortável maioria de que dispõe com o CDS. Voltou a dizer que quer independentes, colocando-os ao mesmo nível do parceiro de coligação.
Se o CDS não chega, mas o PS também não serve, resta, ao que parece, uma base política comum ao PSD e aos socialistas.
E ela é fornecida pela Maçonaria, organização que é transversal ao PSD, ao PS e ao CDS e que poderá oferecer esse tipo de "independentes".
Esperemos para ver.
Com os votos de que Pedro Passos Coelho, via Maçonaria ou quejandos, não arranje maneira de, enviesadamente, governar com o PS e defraudar quem o elegeu.
*Professor Caredrático Jubilado, cronista residente