Segunda-feira, 30 de Abril de 2012

ASSUNÇÃO SABE POUCO DO 25 DE ABRIL

 

 

> A história é a história por muitas voltas que lhe demos. No 25 de Abril de 1974 a única senha do Movimento das Forças Armadas para que as unidades móveis saissem dos quartéis foi a música "Grândola, Vila Morena", emitida na Rádio Renascença pelo programa "Limite" de Carlos Albino. Este jornalista estava por dentro de toda a preparação do MFA e esteve numa reunião com Otelo presente, onde este comunicou que tinha dado uma senha ao seu amigo radialista João Paulo Diniz e que a mesma seria a canção "E Depois do Adeus", de Paulo de Carvalho. Nessa reunião, foi explicado a Otelo que essa senha não serviria para nada porque os Emissores Associados de Lisboa não eram audíveis a nível nacional e que, mesmo em Lisboa nem em todos os locais a frequência dessa estação de rádio era captada. Foi então deliberado que a canção "E Depois do Adeus" se manteria para que não fosse dada a ideia a João Paulo Diniz de que o Movimento tinha sido suspenso e que todos os que ouvissem essa canção às 11.55 horas de 24 de Abril, deveriam preparar-se para as 00.20 horas de 25 de Abril quando o "Limite" transmitisse a verdadeira senha "Grandola, Vila Morena". Na Rádio Renascença por se tratar de uma estação radiofónica com cobertura nacional. E por quê a Rádio Renascença? Porque na Emissora Nacional não havia nenhum trabalhador que oferecesse confiança ao MFA e porque o Rádio Clube Português tinha sido escolhido para ser o posto de comando do Movimento.  E por quê às 00.20 horas? Porque as portas de armas dos quartéis encerravam às 00.30 horas e nesses 10 minutos seriam confrontados pelos militares do MFA todos os comandantes de unidades e os oficiais de dia para se saber se aderiam ao Movimento, ou não. Em caso negativo, seriam detidos.

Neste sentido, estranha-se que a presidente da AR, Assunção Esteves, tenha "oficializado" na última cerimónia do 25A no parlamento uma senha que não foi a senha oficial do Movimento. E se Assunção Esteves pretender para o próximo ano difundir a verdadeira gravação da senha emitida em 1974, resta-lhe pedir à Fundação Mário Soares, onde a bobina está religiosamente guardada, depois de ter sido doada pelo jornalista Carlos Albino.

 

 

por João Severino às 09:00
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pauladas:
De manuel tomaz a 14 de Outubro de 2012 às 16:16
pois é, a história de facto dá muitas voltas e no que estás escrito verificam-se bastantes erros que é urgentes corrigir.
1 - o programa não era do carlos albino. o programa era de Manuel Tomaz e Leite de Vasconcelos.
O carlos Albino era colaborador do programa. foi ele que acertou com o Manuel Tomaz a hora a que senha devia ser transmitida, às 00h20. E com quem Manuel Tomaz combinou a estratégia do que fazer para ser transmitida. fazia-se uma rubrica de poesia que começava com o Grândola , seguida de 2 poemas do carlos albino, sonorizados pelo Manuel tomaz . que ligou ao leite de Vasconcelos para se encontrarem todos na renascença às 19h00, ficando o manuel tomaz com a bobine até que a colocou no gravador para ser lançada como uma rubrica de poesia, à hora combinada. o que aconteceu.
3 - o depois do adeus aconteceu porque o Otelo que tinha conhecido o jpdinis na guine, pensou que poderia ser ele a transmitir a senha com uma canção do josé Afonso . foi o jpdinsi que lhe disse que os associados de lisboa não podeia trnasmitir o j Afonso . o Otelo ficou irritado e perguntou ao jpdinis que canção é que ele pdoeria transmitir para um pequeno sinal em Lisboa , tendo-lhe o jpdinis dito que o melhor seria transmitirem o depois do adeus. isto porque o Otelo quando percebeu que se tinha enganado não quis deixar o jpdinis de fora, para não denunciar a situação.
já passaram tantos anos e é incrível como se escrevem estas coisas duma forma tão distorcida .
quanto à AR e à assunção Esteves , esteve muito mal, porque devia ter aberto a sessão com o Grândola e não com o depois do adeus.
vejam a cronologia do 25 de Abril e verão dados coretos para a história.
uma pena tudo isto.
Manuel Tomaz , o próprio.
De João Severino a 14 de Outubro de 2012 às 18:12
Fiquei sem saber o que de errado escrevi. A minha versão é baseada nas palavras do meu companheiro de longa data no jornalismo, Carlos Albino. Por princípio, apenas interpreto este comentário por muito feio.
De Carlos Albino a 14 de Outubro de 2012 às 20:56
Quanto a isto:
1 - Naturalmente que fui do Limite e aí responsável pelos textos que alimentaram as emissões. Participei, tal como Marcel de Almeida, nas reuniões de decisão do Limite, financiei direta e indiretamente o programa e nunca estive preocupado com propriedades e registos comerciais, porque o que me interessava exclusivamente eram as emissões que, na quase totalidade, acompanhei em estúdio.
2 - A senha foi combinada entre responsáveis do movimento militar e eu próprio (a 22 de março de 1974 houve a primeira conversa nesse sentido e a instrução final foi-me transmitida por intermédio de Álvaro Guerra, como aguardava), sendo Manuel Tomás completamente alheio a este processo. A partir de certo momento, chamei-o à colaboração e cumplicidade, mas podia também nunca tê-lo chamado - sabia como deveria agir. Felizmente o país inteiro pôde ouvir Grândola Vila Morena às 0:20:19 e nunca mais deixou de ouvir.
3 - Havia na altura um espírito de grupo que hoje à distância é difícil de compreender. Tal como os capitães se recusaram a ser promovidos, entre nós, Limite, ficou combinado que ninguém assumiria individualmente o protagonismo da ação. Não escondo, porém, que no caso da senha houve episódios tristes e lamentáveis, designadamente com o locutor Leite Vasconcelos que mentiu, e que acabaria por fugir para Moçambique roubando património do Limite dos escritórios que mantínhamos na Praça de Alvalade (designadamente dezenas de discos e discos que tinham sido adquiridos por mim para uso do programa) e, mais, roubando haveres que encontrou sobre a minha secretária. Da sua mentira quanto à participação na senha, haveria de pedir desculpas públicas através da TSF. Reconheceu que mentiu e ainda bem que reconheceu. Só invoco Leite Vasconcelos que já cá não está, porque o seu procedimento acabaria por potenciar infelizmente outros testemunhos sem fundamento.
4 - O original da senha foi doado à Fundação Mário Soares, em ato público e por documento assinado por quem devia e podia fazê-lo: Marcel de Almeida, Manuel Tomás e eu próprio. O suporte material era propriedade do programa e só os representantes deste poderiam doá-lo.
5 - Sobre a explicação que Manuel Tomás aqui apresenta acerca do seu desempenho, que roça a mentira e fala do que não lhe disse respeito nem o implicou, acabo de lhe dizer frontalmente: omites e mentes.
6 - A quem estiver interessado saber o que, quanto a 25 de abril, deveras se passou na parte que me toca, deixo o número de telemóvel - 919732701. Não tenho nada a esconder nem nenhuma verdade a repor porque os factos foram o que foram e aconteceram uma só vez.

Carlos Albino

De João Severino a 14 de Outubro de 2012 às 21:27
Regozijo-me pelo texto excelente e pela grande frontalidade e dignidade patenteada por Carlos Albino. A verdade é como o azeite... vem sempre ao de cima.
De Anónimo a 16 de Outubro de 2012 às 23:17
"Diário de Noticias"
Lisboa · 24 de Abril de 1999
A verdadeira história da senha do 25 de Abril de 1974
Era meia-noite, 20 minutos, 19 segundos
Carlos Albino
Passaram 25 anos desde aquele momento em que eu e o
Manuel Tomás nos vimos directamente comprometidos e
cúmplices conscientes na senha para o arranque
simultâneo dos militares que decidiram acabar de uma vez
por todas com uma ditadura que matava o País com uma
morte que não se via. Durante este tempo todo, os únicos
responsáveis directos pela execução e transmissão da
senha têm assistido ao mais lamentável desfile de vaidades
por parte de gente e até de forças políticas que
indevidamente têm querido apropriar-se desse gesto. E o
que é mais lamentável é que, tendo este País tantos
historiadores, quase nenhum destes quis acertar com a
verdade sobre factos recentes e autores vivos. Em matéria de senhas do 25 de Abril, tem
havido para cada um a sua senha.
Otelo é que, no fundamental, tem dito sempre a verdade no seu legítimo ponto de vista de
comandante operacional do 25 de Abril. E, diga-se, também pouco mais interessará do que
esse ponto de vista, pelo que os responsáveis efectivos pela execução e transmissão da senha
jamais ao longo destes anos tentaram meter-se ou insinuar-se nessa área em que Otelo fala
por direito próprio, como também, depois que foi comunicada e confirmada em definitivo a
senha escolhida pelo Movimento, jamais incomodaram os militares operacionais com
questões que apenas passaram a fazer parte da responsabilidade de quem, independentemente
do risco (ao lado do local da emissão da senha estava o Governo Civil, pejado de polícia de
choque, e em linha de vista a própria sede da PIDE), assumiu o firme compromisso de a
transmitir e no momento exacto. Foi o que aconteceu e também isto foi importante.
Ora, a partir do momento em que ficou assente que para o arranque do movimento militar
seria necessária uma senha transmitida através de uma estação de rádio com efectiva
cobertura nacional, as escolhas não eram muitas. Uma das escolhas seria o Rádio Clube
Português, que haveria de ser pensado para posto de comando do Movimento após ocupação
militar das instalações, e transmitir previamente uma senha por aí seria uma imprudência de
toda a ordem. Outra escolha possível seria a antiga Emissora Nacional, mas não se via lá
dentro alguém com capacidade de intervenção e iniciativa para actuar àquela hora ou mesmo
a qualquer outra hora, pois os democratas nessa altura não abundavam por lá. Restava a
Rádio Renascença e dentro desta o "Limite", um programa independente que, pelo aluguer de
instalações e antenas para as suas emissões, pagava por mês o equivalente em moeda actual a
4500 contos.
O programa, à data da preparação final do movimento militar, tinha no núcleo duro dos seus
decisores Marcel de Almeida (um amigo de longa data de Melo Antunes), Leite Vasconcelos
e Manuel Tomás (vindos de Moçambique com indesmentivel currículo de democratas) e o
signatário.
Como não acontecia com qualquer outro programa de rádio, o "Limite", que era transmitido
, era alvo de duas censuras: uma que era a da própria Rádio Renascença e a outra a
oficial, exercida por um coronel cujo nome neste momento não me ocorre mas de que
conservo as garatujas de assinatura, instalado na Renascença exclusivamente para actuar
sobre o "Limite" (por tanto recebia o equivalente hoje a 300 mil escudos, quantia obtida
através do aumento do aluguer das antenas ao "Limite" - ou seja, o programa pagava
indirectamente ao seu próprio censor...
E quanto aos célebres Emissores Associados de Lisboa, o que era isso? Essa rede de fracos
emissores mal se ouvia em Lisboa (nas zonas baixas da cidade a sintonia era impossível).
Seria impensável a transmissão de uma senha para todo o País através dos Associados. O
sinal que consistiu em E depois do Adeus serviu e bem como primeiro toque para uns poucos
operacionais e, diga-se já agora, serviu também para quem no "Limite" estava com aviso.
Mas por aí houve uma fase em que toda a gente corria para as senhas de Abril, para os
para os símbolos de Abril, para as condecorações de Abril, para os heróis de Abril(...)
De Anónimo a 17 de Outubro de 2012 às 13:43
gostei de ler este texto sobre a verdade da senha do 25 de abril. Só não percebo uma coisa: carlos albino em 1999 no "diario de noticias"diz uma coisa e depois nos textos de agora diz outra!
De Carlos Albino a 17 de Outubro de 2012 às 21:43
Caro anónimo, para o que diz não precisava do anonimato, a não ser que o anonimato tenha sido expediente. Mas indo ao que interessa:
1 - Não há qualquer contradição entre a versão de 1999 que o anónimo fez bem em lembrar e a versão que hoje se repete.
2 - O texto que deu origem ao esclarecimento que entendi dever fazer é que contradiz o que publiquei em 1999. Eu nunca quis ir além do meu sapato mas não me conformo com gabarolices indevidas, as quais, nas verdadeiras motivações, dá nojo descrever em público, dada a nobreza do tema. Daí que coloquei aqui o meu número de telemóvel para atalhar conversas, pensando que evitaria dúvidas de anónimos ou de conhecidos que sejam.
3 - Sim, a terminar, a história tem pormenores sórdidos mas isso não é diferente do que a casa gasta aí por todo o lado.

Carlos Albino
De Anónimo a 21 de Fevereiro de 2018 às 14:37
A mim uma das coisas que mais me irrita é a referência a uma "Rádio Alfabeta" que não existia, mas que devido a um texto de um "conhecedor" se espalhou pela internet dando azo até a textos académicos com esse erro grosseiro.
Isso e a equiparação da canção "E depois do Adeus" a uma canção de intervenção...

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Jornalista com a Carteira Profissional nº 278. Já restam poucos do meu tempo. Como último cargo fui director e proprietário do diário 'Macau Hoje'. Pode ler o meu CV completo na primeira mensagem de Outubro de 2007.

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