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Pau Para Toda A Obra

Pau Para Toda A Obra

O SEXTO SENTIDO



Catarina Price*





O homem não é um ser inerentemente egoísta ou altruísta; tem o potencial para a destruição, mas também carrega o instrumental para a grandeza.”

(unsourced)



> Sem saber ler nem escrever.

Sem saber ler nem escrever ajuda a filha a fugir ao genro, de cada vez que entra em casa avinhado. Esconde os netos debaixo da cama, tranca a filha na casa de banho minúscula, oxalá ele nunca se lembre de lá a procurar, a porta é de papel, não sei que será se lhe dá um encosto.
Sem saber ler nem escrever, metro e meio de gente encurvada e mais baixa, estou muito mais baixa! enfrenta então o colosso, em voz de mel terna como quem embala um menino, fervendo por dentro na vontade que voe a frigideira que tem na mão na direcção do crânio do borracho.

Cozinha-lhe os ovos mexidos como ele gosta, cheios de sal e com um pouco de leite, que há que ensopar todo o vil espírito que consome há horas no bar do Alfredo. Amanhã já tenho outra conversa com ele, conta enquanto dobra a roupa, perfeitamente engomada. Conversa de homem para homem - fazendo-nos sorrir, se ele pensa que enriquece à custa dos Meus está enganado.


Velha, só tu me entendes! E ninguém faz ovos como tu! rosna-lhe a besta - Anda come-os e cala-te para te ires a deitar meu sem-vergonha! é o máximo que lhe diz, ainda arrepiando caminho quando o vê olhá-la de modo ameaçador.


Isso não pode continuar Dª Alice, dizem-lhe mansamente que sabem não gosta que se metam. Gosta assim de desabafar, como se fosse com ninguém, enquanto afaga a mão de quem a ouve, mas isso não dá direitos a sugestões. Pois não, mas que fazer? Olhe, aturar e cara alegre. Enquanto eu for viva lhe garanto que não toca nos Meus. Ai não toca não que ainda tem cara para levar umas bofetadas – deixando-nos a pensar quantas será que já levou, quantas evitou, em quantas se envolveu para salvar os meus como diz cheia de propriedade e preocupação.


Sem saber ler nem escrever.

Vela pela vida dos seus e por quem lhes faz mal.

Tudo com a mesma dedicação, a mesma voz mansa e terna, mesmo fervilhando por dentro. Mesmo sofrendo.
Haja quem vele por ela.
E por todas como ela.

*Cronista residente

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