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Pau Para Toda A Obra

Pau Para Toda A Obra

A bofetada

Ontem, mantive uma conversa com um arrumador de carros sem-abrigo. O gesto que ele fazia com o braço para os carros dava a ideia que se alguém passasse por perto podia levar uma bofetada. E eu entrei numa de o cumprimentar com ironia: "Bom dia, com esse gesto ainda dá alguma bofetada em alguém que passe...". Ele achou graça e respondeu ao bom dia e pediu-me logo um euro. Dei-lhe dois e perguntei-lhe a razão da vida miserável que levava. Era agente da PSP e foi expulso. Um comandante severo demais decidiu que o seu "crime" merecia a expulsão da corporação. Não interessa o que o ex-agente fez mas posso dizer-vos que não era razão para expulsão da corporação. São os tais comandantes que depois servem-se da polícia para todo o tipo de negócios. Segundo o meu interlocutor, até há comissários que recebem comissão de cada carro que é vendido em certos stands de automóveis só para fecharem os olhos às modificações nos carros, alguns roubados no estrangeiro.

Mas voltando à conversa com o arrumador de carros disse-me que dormia na rua. Que chegou a ter uma vida razoável e que até tinha carro. O grande desgosto foi a ida da sua mulher com a filha para França. Há mais de seis anos que não os vê nem sabe nada deles. Para ele, dormir na rua é um crime. O governo devia construir casas de abrigo para pessoas como ele. Não têm nada. Fazem as necessidades e lavam-se nos cafés e a mente cai na droga porque passa o tempo todo a pensar no que já foi e nos amigos que o abandonaram.

Em jeito, de o contentar, lá lhe fui dizendo que um dos homens mais ricos do mundo também me tinha desgraçado a vida e que hoje vivia com a minha mulher doente, só com a ajuda das suas irmãs e do meu filho. Que tinha perdido tudo e que o futuro a Deus pertence e, por isso, que não sabia se um dia não estaria junto dele a dar umas bofetadas no ar...

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