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Pau Para Toda A Obra

Pau Para Toda A Obra

Quando não há Natal

A noite estava fria, caía uma chuva miudinha. Era noite de Natal. Em casa ninguém ia à missa do galo e toda a gente se deitou cedo. Resolvi sair pela porta fora. As luzes das ruas com os efeitos natalícios fizeram-me lembrar que não tinha dinheiro nenhum no bolso. Ainda passavam pessoas com sacos cheios de presentes de Natal que iam para os jantares ou festas tradicionais. Percorri muitas ruas a olhar a decoração das montras. Artefactos lindos, roupas maravilhosas, stands de motorizadas que eram o sonho de qualquer jovem. Andei tanto pelas ruas da cidade que me cansei. As pernas doiam e no Natal nada deve doer. Sentei-me numas escadas e apareceu um velhote meio embriagado muito mais pobre que eu. Sentou-se ao meu lado e perguntou-me se também não tinha Natal. Respondi-lhe que já tinha tido quando os pais e irmãs jantaram cedo e abriram umas prendas. O homem achou-me demasiado novo para ser um solitário não embriagado e quis saber a razão da minha presença sentado nas escadas daquele bairro. Respondi-lhe que apenas me sentia triste porque não tinha Natal como a maioria das pessoas. O velho ficou ainda a saber que eu sofria de solidão porque a minha família não era natural. Nunca tinha conhecido o meu pai legítimo e vivia na casa do padrasto. Soube ainda que me fartava de chorar por nunca ter pronunciado a palavra pai, a não ser quando se falava do Pai Natal. Quando não há Natal as lágrimas não páram...

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