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Pau Para Toda A Obra

Pau Para Toda A Obra

Diga lá, senhor Primeiro-Ministro...

 

> O Senhor Primeiro Ministro fala hoje à Nação.
E mais do que curiosidade sobre o que vai dizer, impor e comunicar eu gostaria de ver abordadas questões simples. A sério. Gostaria de ver abordadas questões de sobrevivência.
Questões de educação e ensino.
Questões de saúde e de trabalho.
Gostaria que a agenda encerrasse temas que me são queridos como por exemplo o insucesso escolar, as diferenças, o
desemprego, a habitação, a terceira idade e as condições em que sobrevive.

Gostaria que o discurso do Senhor Primeiro deste País que é o meu e que eu amo, versasse sobre o futuro, o que poderemos fazer, em conjunto e individualmente para que o que nos espera seja algo com que podemos sonhar. Sem desesperar.
Gostaria até, tendo a consciência tranquila que não estou a pedir demais, que me desse noticias sobre o casal a quem a dívida ao banco desalojou ou dos garotos do bairro que apoiamos que não vão para a escola porque não têm o que calçar.
Gostaria mesmo que o Senhor Primeiro me descansasse assegurando que todos têm onde e como viver. Com dignidade.
Gostaria ainda, e eu sei que protocolos, agendas, horários e sharings são tudo palavras cheias de significado, mas gostaria ainda que desse aos Portugueses um voto de confiança.
E que, mesmo que não tenha a certeza absoluta, nos garantisse que ainda não desistiram de Portugal todos aqueles que nos governam.

Mas isso sou eu.
A utópica de serviço,
Catarina Price Galvão

RETRATOS (2)




Catarina Price*






Sentada no restaurante, à espera do bife grelhado, só com salada por favor, olho em redor com alguma atenção.
Ali à direita um casal que se adivinha ilegal num discussão em surdina sobre que digo eu à minha mulher .. Dá-me uma ideia! (apeteceu-me aconselhar o incauto sobre esse tipo de perguntas e explicar-lhe tintin por tintin o que quer uma mulher ouvir quando o seu homem deixa de gostar dela, mas, obviamente que me abstive)) .. Mais adiante um grupo de rapazolas com livros dispersos pela mesa, cotovelos apoiados, cavaqueiam e depenicam uma travessa de batatas fritas .. À esquerda uma mãe jovem com uma criança pequena, esforça-se para que coma um enorme prato de sopa, sem pingos nos calções, num chega-te para a frente que o pequeno rabeia atirando sopa, pão e o que mais esteja na frente, propositadamente para o chão .. O olhar da mãe é aflito, na tentativa de chamar a atenção da empregada com um pano, por favor ..!
Tenho esta mania, que fazer? A ausência de companhia é quase propositada nas pausas que me concedo e ao fim e ao cabo, que melhor companhia que as vidas que correm esbatidas?

Reparei assim facilmente na sua chegada .. Lenço na cabeça como me lembro que andavam as mulheres na terra de meu Pai, com penteados perfeitos de compridos cabelos bem amarrados, saia comprida, quase até ao chão, camisa florida mas em tons tristes e desbotados, usada mas perfeita de asseio e de ferro de engomar utilizado com afinco.
Olhar atento pelo balcão, ar de pouco conforto na procura de uma mesa escondida, perto de uma porta de preferência, discreta, para que não dê nas vistas.
Admirei-lhe o ar decidido com que atravessou a pequena sala, alheia e indiferente aos olhares curiosos com que a brindam os rapazolas, passo firme e saia num fru fru a rasar o chão. Passou-me ao lado e senti-lhe o cheiro a tremoceiros e pé de oliveira, vi-lhe as mãos escuras, tisnadas, enrugadas do trabalho, os olhos fitos na parede em frente numa tentativa de que a sua atenção não seja desperta por nada que a faça virar a cabeça.


Sentou-se na mesa detrás. Ouvi-a afastar a cadeira e a saia, sentar-se, e à empregada que acorreu rápida e solícita, quem sabe para minorar o sofrimento” da observação no meio de anónimos (não o somos todos?) .. pedir: uma sopa .. e a garrafa de azeite, se fizer o favor, menina ..
Sorri.

Típico.


Ao apanhar-me do chão a carteira teimosa que caía pela segunda vez, mania de a dependurar na costas da cadeira, proferi um Bem-haja e vi abrir-se um sorriso luminoso e um brilho a seara madura nos olhos .. da Beira, menina? .. Também .. :)


*Cronista residente


RETRATOS (1)






Catarina Price*



> Sinto-lhe os pés arrastados em pantufas de fazenda, quadrados debotados sem cor definida.
Oiço-lhe a tosse cavernosa, profunda e dolorosa em laivos de agonia que esconde fechando a porta do hall. Atento agora na voz da filha cuja ladainha conheço de cor: “pára com isso! Quero dormir!” e adivinho a lágrima que provavelmente lhe correrá face abaixo, o peito dorido da enfermidade e da falta de carinho, que bem lhe saberia um “pai estás bem? Queres um chá?”.

Atento na vida que me rodeia, mania que desde sempre tive, no início para me esquecer da minha, depois porque sim.
Olho-o nos olhos na manhã seguinte, sai cedo para o pão do pequeno-almoço deixando a “criança” mais um pouco na cama, e vejo a mesma dor que adivinho em noites sem descanso, as rugas mais profundas e amareladas de um corpo sem ar, o cabelo em desalinho de quem já não quer saber.
As roupas exalam um ligeiro cheiro a mofo e o lenço de pano pende um pouco fora do bolso das calças.
Desce as escadas para a porta da rua, muito direito e segura-nos a porta num “se faz favor meninas” ao que a princesa lhe lança um sorriso e um sonoro obrigada, encolhendo-se para não lhe bater com a mochila e fazendo-o sorrir.

É um dos.
.. Dos muitos que nos povoam as ruas, as padarias à abertura, os lares, os centros de saúde a todas as horas.
Solitários, incompreendidos, vistos como carga de trabalhos, muitas vezes abandonados.
Os nossos idosos estão tristes.
Que podem os nossos filhos esperar de uma geração que assim (mal) trata as suas raízes?
Exemplos?

*Cronista residente

O SEXTO SENTIDO




Catarina Price*





Simples


Olho à minha volta.
A manhã está calma, o telefone não toca. Os papéis estão arquivados e há dois relatórios que esperam notas laterais que não me apetece fazer. Um totoloto em cima da mesa com uma nota de dez euros agarrada como que a desejar a dizima .. dois potes com canetas e lápis, marcadores, régua, faca de correio, borracha, afia, post-its de todas as cores, uma verdadeira fixação minha esta de colocar cada um no local de assinaturas importantes. Ou outras. Uma caixinha de cartão feita pela princesa há anos serve de abrigo a cartões de visita e outros, cada um de seu tamanho, cor, conteúdo. Mais um escaparate para envelopes, Dl’s do meu descontentamento com medidas precisas, um inferno na hora de imprimir usando um aparelho que além de imprimir, recebe faxes, tira fotocópias, scaniza documentos .. inteligente a coisa.
Chega um colega e pergunta-me pela princesa. Sente-me em silêncio nos últimos dias. Atribui a algum problema com a mais que tudo. Parte descansado, abrigado no meu sorriso “está óptima, obrigada”.
O telefone continua mudo, sente-se por todo o lado a crise, como se de luto andássemos, em ponta de pé. Silêncio.
O móvel pequeno, cinzento, gavetas ordenadas por prioridades, não há nenhuma que me indique a lista de compras que deixei em casa, isso sim era importante agora.
Outro móvel mais robusto alberga o material do andar. Lápis, canetas, mais post-its, agrafes de todos os tamanhos e clips então? São às dezenas que se espalham em alegre cantoria de cada vez que a gaveta fecha. Por muito cuidado que se tenha na operação. Há dois dossiers azuis, brilhantes, aos meus pés, ainda não arranjei local para os ter à mão sempre que necessário, nada melhor que estarem ao alcance do braço esticado. No chão. Provavelmente não passarão daí. O papel dos rebuçados de mentol com os quais, durante o dia, engano a vontade de fumar, brilha no néon das lâmpadas cuidadosamente escolhidas ao abrigo dos ISO impostos e os outros, inventados. “Estás a imprimir?” pergunta-me uma cabeça que assoma à porta do gabinete .. Não, respondo .. está a receber um fax. Vejo os olhos arregalados como que assustados e um riso de gozo “uhh spooky!” já me cansei de explicar que o aparelho inteligentíssimo que temos no piso faz ligeiros e diferentes barulhos assim esteja a imprimir, a receber faxes ou a proceder ao pdf de um documento. Não me acreditam? .. pois.

Param os olhos no relógio do telefone. Alarga-se o olhar até à pequena foto da princesa numa moldura de íman, ligeiramente escondida por detrás do écran grande demais que me ocupa parte da secretária. Sorri a minha filha, mecha de cabelo caída, vestido de verão.
Está óptima sim, obrigada.

*Cronista residente

O SEXTO SENTIDO




Catarina Price*






Outro Conto Solto

>
Ninguém sabe muito bem de onde vieram.

Apareceram no bairro há coisa de uns três ou quatro anos, de apartamento comprado ali para os lados da avenida. A mãe, Matilde, comprou um dos bungalow de madeira em frente ao maior liceu do concelho e transformou-o em algo que, de tabuleta discreta por cima da porta, anuncia Café com Letras. É um espaço arejado, bem decorado, cheio de prateleiras imensas onde repousam obras antigas e bem encadernadas que competem em linha horizontal com manuais escolares de todos os anos e computadores espalhados em pequenas mesas. Por detrás do balcão aguarda-nos um sorriso sereno num rosto marcado por uma vida que, assim de relance, se adivinha ter sido penosa. Não pelas rugas praticamente inexistentes, nem pela forma de andar ou falar, mas pelos olhos. São lagos de lágrimas secas aqueles olhos. Alguns cabelos brancos espreitam, bem amarrados numa fita de cor, e o avental verde-claro, de traçado e meio, tapa-lhe a roupa deixando apenas de fora um calçado elegante. O filho mais novo trabalha no espaço. Dá explicações, à borla, à miudagem. E o que esta o admira. É um rapaz muito bonito, com os traços delicados que herdou da mãe em conjunto com uma irreverência própria da idade, modos algo antiquados de tão gentil, e grandes olhos verde-escuro, tão escuro como a floresta em dias de inverno, expressivos e a inspirar confiança. Ilimitada. Parece que tenho um fraquinho por ele não é? E tenho mesmo!!


Sabe-se que há mais dois filhos. A mais velha chama-se Marta, é formada em medicina a trabalhar com os Médicos sem Fronteiras, actualmente em África. O rosto de Matilde ilumina-se de cada vez que recebe um postal, um telegrama, uma pequena missiva que lhe traga notícias. Cola-os a todos num quadro de cortiça num canto da sala do café e explica aos curiosos onde está a sua mais que tudo e que faz ela na vida. Os mais pequenos, alunos de 7º e 8º ano do liceu ouvem-na maravilhados e fazem-lhe mil perguntas se ela não tem medo dos animais selvagens e se consegue curar todos os meninos doentes. Os mais velhos chegam por vezes a comover-se disfarçando rapidamente a lágrima matreira ou a cor avermelhada nas faces com um pedido de copo de leite com cacau como só a Senhora sabe fazer. A Senhora. É comum vê-la embrulhar as sobras do dia em papel de prata e dividir em pequenos sacos que distribui pelas mochilas dos que sabe precisam. E como sabes mãe? Pergunta-lhe o filho com frequência ao vê-la evitar umas mochilas e abrir outras. Olha-os nos olhos Miguel, responde-lhe baixinho e num tom tão terno que o atira rapidamente para os anos em que enrolado numa manta rota, no chão de uma sala sem móveis, adormecia ouvindo-a cantar num sussurro a altas horas da madrugada. Olha-os nos olhos que dizem sempre o que calamos.
Do outro filho ninguém sabe grande coisa. Acho que nem ela. É o único com direito a medalhão de fotografia pendurado ao pescoço. Arrisca-se que morreu, que fugiu, que deu um desgosto à mãe e que a mãe lhe deu um desgosto a ele. Assim mesmo à vez. Vez das pessoas que comentam sem saber, mas porque têm de comentar para tentar saber. Ninguém lho pergunta directamente mas quando fala dos filhos ela enuncia-os por ordem de idades e chegando ao Manuel toca ao leve no medalhão. Como que a ter a certeza que ele ainda está por ali.


O espaço é fantástico. E está quase sempre cheio de garotos que em horários divididos ali passam grande parte do tempo livre. Estudam, pesquisam, lêem, comem e bebem. Não há caixa registadora, nem dinheiro, nem qualquer tipo de troca.

O grande mistério é saber como é que ela consegue manter tudo, tudo oferecer sem nada pedir em troca. Diz-se à boca fechada que depois de muito sofrer na vida recebeu uma herança incalculável. Outros alvitram que lhe saiu um qualquer prémio em dinheiro chorudo. A maioria limita-se a agradecer aquela presença serena e meiga, algo etérea, num dos bairros mais complicados, pobres e carenciados do concelho. São vários os pais que lhe pedem que olhe pelos meus meninos que a admiram tanto e outros tantos que a interpelam pedindo conselhos sobre como reagir ou castigar ou premiar. Ouve-os a todos como se nada mais tivesse para fazer na vida. É esta disponibilidade permanente, esta concentração no interlocutor, aqueles grandes olhos castanhos secos de lágrimas e sem brilho, que nos atrai a todos.

Como se ali estivesse, por nós e para nós.

O filho sorri quando lhe fazemos perguntas mais íntimas e evita-nos arqueando o sobrolho em tom meio irónico meio sério.


Há dias, estava eu sentada a consultar uma enciclopédia como as que havia em casa do meu Pai, entrou uma mulher de uns trinta anos, meias de renda preta e saia curta, blusão de pele colado ao corpo, muito maquilhada o que lhe dava um ar patético. Curiosa observei o diálogo entre as duas:
Preciso de ajuda sabe? Precisava que me emprestasse algum dinheiro para poder ir à cidade. Os clientes e o tom de voz baixava à medida que a minha curiosidade aumentava. Vi o corpo da Matilde ser percorrido por um arrepio. Juro que vi! Quando em casa contei o episódio todos me olharam no gozo, mas eu juro que a vi transformar-se. Saiu de trás do balcão onde cortava fatias muito fininhas de pão que depois de barradas com manteiga caseira eram colocadas no forno cobertas de queijo, e faziam as delícias da segunda leva de miúdos que deveria estar a chegar para lanchar e fazer os trabalhos de casa.


Agarrou a rapariga pelos ombros e disse-lhe em voz clara e tão diferente do tom que lhe conhecemos tu queres trabalhar? Ao que a outra, meio assustada com a reacção de quem lhe tinham dito ser a pessoa mais calma e serena que poderia conhecer, respondeu quero, claro, mas como, onde .. a fazer o quê? A senhora sabe como isto está não sabe? Desculpe, desculpe, disseram-me para vir aqui que … olhe desculpe, e quase a chorar ia andando para trás, tentando libertar-se daquelas mãos que lhe apertavam os ombros e daqueles olhos que lhe perscrutavam a alma.


Vi a Matilde acalmar. Abrir uma gaveta e dela retirar um avental igual ao seu. Mirou a rapariga e disse-lhe num tom totalmente diferente, no seu tom; naquele tom que nos diz que é connosco e só connosco que ela está a falar: eu preciso de ajuda por aqui minha querida. Importas-te?

Há algo que sempre me deixou curiosa depois desta cena. Porque é que de todas as pessoas que a Matilde já ajudou, de todas a quem já tanto pagou, ofereceu, proporcionou, teve esta rapariga honras de com ela passar a partilhar o espaço que todos adoramos e onde nos sentimos em casa? .. eis uma pergunta que gostava de ver respondida.


Mas nenhum de nós tem a coragem de a verbalizar. E isso eu sei porquê; temos medo de voltar a ver naqueles olhos o horror, o pavor e a tristeza que vimos no dia em que aquela rapariga entrou no café.

Somos afinal uns sortudos! E esperamos que a Matilde e o Miguel fiquem por aqui muito tempo. Acho que é isso que temos de lhe dizer este Natal! Acabei de ter a ideia da minha vida!! Mal posso esperar para contar aos outros: Vamos desenhar-lhe um postal de Natal!

Todos Nós. Juntos.

Como ela sempre diz que temos de ser. Juntos são invencíveis, ouvimos-lhe com frequência, Acreditem nisso.

Está na altura de lhe agradecer isso também.

*Cronista residente

O SEXTO SENTIDO





Catarina Price*





A pérola


Que te diz, que te diz?
Que te traz o vento que abraças?
Em sorrisos que abarcas
Este mundo e mais ainda
O mar
O rio
O verde

Que te diz que te diz?
Que te traz a tempestade?
Feita de raios de lua
Que te diz o mocho?
Que te sussurra a coruja?
Que te diz que te diz?
A pérola que trazes no coração
Tão brilhante e tão pura
Que chego a sentir amargura
Sabê-la por mãos errantes

Que te diz que te diz
Dir-te-á que te amo?
Que te quero e venero?
Dir-te-á que te engano?

Dir-me-á que me engano.



*Cronista residente

O SEXTO SENTIDO




Catarina Price*






Desabafo (I)

> Era tão bom que as pessoas conseguissem assumir-se como são e querem ser sem terem de denegrir quem acham que está dois degraus acima não era?
Era.
Principalmente quando a distância é infinitamente maior que isso.

A propósito? perguntam e bem.
A propósito desta maldadezinha mesquinha e pequena que inunda cérebros e posturas, tão a jeito de uma humanidade que arrota postas de pescada sem saber limpar uma espinha.
A propósito da humildade mascarada em cinismo pronta a dardejar como se de arco e flechas ainda andássemos.

Se acham que os outros estão “acima” ergam-se caramba .. não nos arrastem a nós pela lama onde se movimentam.

*Cronista residente

O SEXTO SENTIDO




Catarina Price*




INSPIRAÇÃO

>
Sento-me à mesa da sala na penumbra do candeeiro que espalha uma luz difusa, serena. Miro a vela a arder, cheiro a canela, vermelho sangue, e inspiro calmamente o aroma apelativo que se encarrega de eliminar os vestígios do último cigarro fumado. Maldito vício que já tentei contornar de todas as formas e mais alguma. As folhas de linhas estão sobrepostas, milimetricamente arrumadas, e a caneta predilecta em cima delas, ligeiramente inclinada. A inspiração não aparece, não há assim um tema, O tema sobre o qual me apeteça escrever, a política nacional faz-me sorrir de tristeza, os casos, casinhotos e casotas, melindres de almas pouco sérias não são para esmiuçar. Perscruto o molho de folhas, arrumadas na tentativa que do papel ainda branco, pautado, saia a ideia que me apeteça explorar e recordo as boas-noites da princesa, dorme bem mummy, amanhã quero ler, e que vai ela ler, sorrio agora mirando o tecto e dando graças pela limpeza profunda a que me dediquei, os tectos estão alvos de novo, as paredes bem esfregadas e nem uma réstia de nada a apontar em cima dos móveis ou sob os sofás.
Amanhã quero ler e a inspiração que não vem, a vela arde, não até ao fim que ao contrário do que se advoga não é bom presságio quando tal acontece, logo eu que de supersticiosa tenho menos que nada, mas o certo é que não as deixo a arder sozinhas e raramente lhes aproveito os restos. O candeeiro cansado, os meus olhos também, mais uma anotação mental para reapreciar se as lentes ainda continuam a cumprir a sua obrigação, uma volta pela cozinha arrumada, mais um toque no estore de tecido que não me parece direito, abro e fecho o frigorífico à procura de coisa nenhuma e apago as luzes.
Passo no quarto dela cuja respiração nem se ouve, coisa que me afligia e me tirava o sono quando ela ainda era bebé, sempre dormiu sem se ouvir esta criança e penso que de criança tem quase nada já, comprida que está, a ocupar metade da cama em largura mas com os pés já visíveis perto da madeira. Beijo-a na testa ao que murmura algo imperceptível e sorri acompanhada que deve estar nesta altura de sonhos doces, com o que sonhará a minha filha, pergunto-me, afastando-me para o meu quarto e pensando intimamente: amanhã terei a inspiração para outro algo escrever.
Estou certa que sim.

*Cronista residente

O SEXTO SENTIDO




Catarina Price*


> Estou cansada.
Cansada de segurar a porta do elevador e dizer bom dia sorridente a quem lá vem dentro sem obter resposta ou sorriso equivalente.
Cansada de esperar que passem todos, os mais velhos e os mais novos na passadeira sem acelerar, derrapar, guinchar pneus, como vejo fazer imediatamente atrás de mim. Cansada de ser correcta e educada, ensinar a filha a ser correcta e educada para depois ser ridicularizada por uma professora que coitada, é só a directora de turma. Só. Sem qualquer responsabilidade acrescida portanto, numa altura em que para pessoas como a dita senhora ser professora é .. (algo que a própria ainda não descobriu).
Cansada de cumprimentar, agradecer, pedir por favor. Facilitar, ceder. A sério. Nos tempos que correm mais rápidos que o que se consegue viver penso ser algo obsoleto, perfeitamente antiquado e objecto daquele irritante sorrisinho condescendente que alguns imitam tão bem, a cordialidade, a urbanidade e acima de tudo, a educação. Aquela real. A de berço.
Estou cansada de me ver envolvida em questões de consciência. Mesmo. Acho aliás que uma das resoluções deste ano redondo será mandar a minha querida e estimada consciência às urtigas. Assim mesmo. Sem apelo nem agravo. Porque diabo tenho eu de me consumir em assumir a postura mais correcta, ponderada, serena e pensada se ao meu lado as pessoas atiram-se para o chão e fazem uma birra digna de criancinha de três anos porque perderam o lugar de estacionamento X no meio de centenas de outros disponíveis? Não me explicam? Porque razão tenho eu de me esforçar em considerar todos os ponderandos e considerandos da minha pobre existência quando vejo outros, com responsabilidades maiores que o verbo a dizerem hoje o que juram a pés juntos não disseram, amanhã.
Portanto.
Assumo que estou cansada.
E sei que isto não é nada bom. Nada bom, mesmo.

*Cronista residente

O SEXTO SENTIDO




Catarina Price*








Lamento sonoro que me acorda noite a meio
Uma porta bate em fúria
Um grito exprime o cansaço da vida
estou farta, quero morrer!”
Tapo a cabeça. Não quero ouvir.
Chora a criança, em t
error, acordada
Pés batem com força, fuga em desespero
Abre-se o estore, uma janela de vidro bate de impulso e oiço os estilhaços no chão
Oxalá estejam calçados, lembro-me de desejar
O choro da criança insiste, a criança insiste no choro
Na esperança de os fazer parar.
Estou farta, quero morrer! Grita a voz esganiçada de raiva e de dor
Uma chave roda a fechadura, abre-se a porta para a rua
Os gritos sobem de tom
As palavras perceptíveis
traição apanhada, mentira escondida, vida arruinada
Dou-me, de repente, conta que deixei de ouvir a criança
Prudente, desistiu.

*Cronista residente